domingo, 26 de setembro de 2010

Fiapos ao luar

A claridade se expande. Tudo é refletido pelo brilho prateado. Reina o silêncio, quebrado por passos ou expressões.

Uma rua arborizada. Transeuntes se cruzam e seguem caminhando.

A luz da lua deixa transparecer nas pessoas suas fisionomias. Ele caminha lentamente. Não está pensando. Não está falando. Na cara, a angústia retratada. Nas vestes a miséria esgarçada. No andar e nos ombros o peso desta vida desandada .

As pessoas continuam passando. A lua se escondeu atrás de uma nuvem. Um carro buzina. Um gingado e o corpo que se esquiva. Um pneu que canta. Nem há susto. Está acostumado. Embrutecido e arredio. Solta um palavrão e continua andando. Lampejos de vida a pulsar.
Procura um pedaço de pão duro nos bolsos. Um vento sopra vagamente os fiapos ao luar. Seu estômago roncou sem que achasse o pão. Um ódio encontrou para lhe dar razão. Sua mente está esfarrapada e escura.

Em conta-gotas

As gotas de chuva
As gotas de lágrimas
Em gotas de orvalho
Os raios de sol

A homeopatia
Que vibra para nós
Instantes de agora

A fonte de luz
Que a tudo seduz

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A primavera podia ser mais alegre


Assim como ela é difícil da gente encontrar. Fácil é vê-la todas as manhãs, armada de vassoura, pá e saco de lixo, varrendo a praça que fica ao lado do córrego "Avenida dos Lagos”. Bem ali na esquina com a avenida Artur Cordeiro e a rua Luis de Pina, altura do 2300 da avenida Robert Kennedy, em São Paulo. Com suas luvas, vassoura e pá, vai limpando o lixo que toda essa gente deixa por aí. Gente que mora em casas e gente que mora na rua. Deixam todo tipo de sujeira: garrafas plásticas, papéis, roupas velhas e até cocô. Quando ela falta um dia, por motivo de força maior, a próxima limpeza é ainda mais dura. Muita gente não entende e até critica essa atitude cidadã. Ao invés de criticá-la devíamos é imitá-la.

Dia destes, uma ave conhecida como “enfermeiro das árvores”, surgiu com ânimo total a animar a praça. Era um pica-pau de cabeça amarela e um bigode vermelho (Celeus Flavescens).

Este tipo de ave se alimenta de larvas, insetos, formigas e cupins. Para o pica-pau a árvore oferece alimento, para a árvore ele extrai as pragas e a ajuda a manter a saúde. É carpinteiro e também percussionista, tamborilando suas mensagens. Faz uma cavidade na madeira martelando com o bico. Geralmente na fase produtiva. Martelou que martelou. Chamou a fêmea, que era uma pica-pau de cabeça amarela, loiríssima, um pouco menor que ele, porém sem o bigode vermelho, naturalmente. Ela chegou meio tímida, entrou olhou e parece que aprovou. Tudo indicava que aquela grande e velha árvore tinha sido escolhida para nidificar. Uma praça bem cuidada por uma bondosa senhora. 

Zeladora incansável. O pica-pau ia consertar a natureza de seus insetos nocivos e tratar a madeira da velha árvore. Vida boa pros filhotes que certamente viriam. Todos que passavam não se cansavam de admirar aqueles preparativos. Não demorou muito e notou-se que a cavidade no tronco da árvore estava cheia de lixo e pedras. Nada de pica-pau de cabeça amarela.

Morador de rua contou que viu menino capturar o pica-pau e até levar umas bicadas.

Voou pra longe a alegria dos passantes. Silenciou a percussão na velha árvore. Não mais o colorido do pica-pau. Não mais reprodução.

Dona Olga continua seu trabalho solitário. Limpar o chão é fácil, difícil é manter limpa a consciência das pessoas. A primavera podia ser mais alegre.


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Um bom dia para velejar

Sexta-feira 13. Um bom dia para velejar. A turma da caminhada terapêutica da UBS Veleiros se faz presente. O número 4988 da avenida Robert Kennedy é uma festa de gente vestindo os coletes salva-vidas. O passeio de barco a vela se aproxima. Menos mal que não é a motor. Barcos a motor e jet-ski matam peixes com suas hélices e também poluem. Uma palestra sobre sustentabilidade antes da jornada. Proteger a o meio-ambiente, entender que somos parte da natureza. Controlar nosso instinto destrutivo. Por que matar uma formiguinha se ela estava só passando e não fez mal a ninguém?

Achar o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a preservação, um desafio permanente. Como diria Francis Bacon, "para se dominar a natureza é preciso primeiramente obedecê-la".

Da ação para a reflexão, da reflexão para a crítica e da crítica para a prática. Passos dados em direção ao Dick Sail e o embarque. A paisagem encanta e fascina. Apesar da poluição, a atmosfera deste final de verão se revela agradável. O sol emoldurando tudo: Bairro do Riviera, Ilha dos Amores, Ilha dos Macacos, Ilha dos Eucaliptos. Garças brancas, corujas, sanhaços, bem-te-vis, gaviões, répteis e gambás completam o cenário.

A represa de Guarapiranga é o segundo mais importante manancial da região. Abastece cerca de 4 milhões de pessoas. É abastecida pelo rio Guarapiranga e outros rios e córregos de menor porte. A palavra Guarapiranga significa Lagoa Vermelha. Vermelhas eram as faces, coradas de emoção ao singrar do barco como as folhas do outono que se aproxima.

Gisele

Ser professora de informática é apenas mais um dos seus atributos. É psicóloga e trabalha na Fórmula 1.


Também trabalha como voluntária. Estuda o tempo todo. Não é bombril mas tem mil e uma utilidades. A frase não é nada original. Original é essa criatura que chega bem cedinho no Telecentro Malba Tahan, que fica no bairro de Veleiros em São Paulo.
O telecentro fica dentro da Biblioteca



Já chega trabalhando. Começa levantando a auto-estima e incluindo a todos no mundo digital. Só de vê-la em ação todos se animam em aprender e apreender os conteúdos. É que lá no fundo, todos sabem que a presença dessa pessoinha feita para amar o que faz, é o que nos move e faz querer aprender cada vez mais.


Segue incansável prá baixo e pra cima. Cabelos estilo samambaia, sempre presos. Solto é seu desejo de que todos estejam conectados e afinados com o mundo virtual. Olhar atento, ouvidos abertos, pé no chão. Sensibilidade à flor da pele. Uma flor de pessoa a inspirar e despertar na gente o que a gente tem de melhor. O nome dela é Gisele e significa Garantia. Viu só?

Do curso "efeito água" by Roberta dos S. Fernandes

Pedaço da China

Contam que o Budismo surgiu na Índia no século VI a.C.

Chovia demais. Um daqueles sábados de fim de julho. Manhã gelada. Assim, encapuzados e encapotados surgimos no local. O templo Zu Lai, à nossa frente, imponente e magistral. ‘Combater o mal onde exista; Nunca praticá-lo onde não exista; Conservar o bem onde ele exista; Praticá-lo onde não exista; Estes são os ensinamentos de todos os Budas’.

Na relva, budas impávidos brilhavam em gotas prateadas. Nesta planície, a turma fotografava esculturas singulares. Miquinhos a pular de galho em galho se oferecendo despudoradamente aos cliques dos dedos gelados.

Falam que a melhor religião é a que nos torna melhor. Do latim religare, religar. Às vezes, a gente se reconhece através dos outros. Nosso encontro é sempre um reconhecimento e uma celebração. Transformar nossa perspectiva numa paixão comum. Paixão que passa pela leitura. Leitura desta cidade que estarrece e encanta. Buscar o melhor da vida. Uma motivação literária e poética.

O restaurante vegetariano do Templo Zu Lai, um mundo de panelas gigantes. Pias enormes e monjas pequeninas. Grande é o talento culinário e o apetite forasteiro. Na cafeteria e no restaurante, o rosto coberto. Ah, esta gripe A (H1N1) tem o poder de deixar qualquer um mascarado...

Compaixão, bondade e amor. Ingredientes necessários para abrir portas, manter amizades, reconhecer nossa cidade. Explorando cada cantinho dessa paz.

Estando lá, ouvindo o silêncio, é impossível deixar de se sentir mais tranqüilo, mais feliz.

Neste dia foram muitas as descobertas. Parecia que estávamos no exterior. Mas era Brasil e era São Paulo. Pedacinho da China tão perto de casa.

Os 3 Rs

De guerreiro e de mestre
Tem de tudo em nossa gente
Nem precisa ser tão doido
Pra cuidar deste ambiente
Reduzir tudo é possível
Com consumo consciente

Um visionário recicla
Nem precisa ser guerreiro
Curador é necessário
Mesmo se não tem dinheiro
Reutilizar se pode
Faz saúde no terreiro

Para alguns é feiticeiro
Para outros, ecológico
Harmonia em todo espaço
Ser humano também lógico
Vai tratando seu planeta
Analisa o patológico
Terra, água fogo e ar
Nossos quatro elementos

O Cordel do CCM

Um teto para a cidadania

I
É com muita alegria
Que começo essa prosa
De experiência vivida
De forma tão venturosa
Em dias de aprendizado
Nessa equipe amorosa

II
Arte, gênero, cidadania
Tendo o direito aclamado
Ficou bem claro pra gente
Neste espaço adorado
Valorizando a mulher
Atendendo ao seu chamado
Foto Suely Schraner -Festa aniversário 5 anos do CCM

III
Chamado que vida faz
Vindo às vezes da tristeza
Vencendo a melancolia
Transforma dor em beleza
Consciência, autonomia
A nossa maior riqueza

Foto Suely Schraner 05.07.2012


IV
Valorizando a vida
Transpondo qualquer barreira
Cumprindo o seu dever
De toda e qualquer maneira
Amando tudo o que faz
Desenvolvendo carreira

V
Propiciando contatos
Cultivando amizade
Promovendo independência
Rompendo adversidade
No CCM acontece
A total integridade

VI
Palestras e oficinas
E também artesanato
Quem vem não quer ir embora
Fica envolvido de fato
Acolhimento e afeto
Deixa saudade no ato

VII
Com esta motivação
Termino com poesia
Desejo muito sucesso
E também muita alegria
Que a paz seja presente
De noite e também de dia

VIII
Que todos sejam felizes
Em qualquer fase da vida
Com esta capacidade
Na arte desenvolvida
Agradeço este programa
De forma bem definida



CCM= Centro de Cidadania da Mulher de Santo Amaro
Rua Mario Lopes Leão, 240

Natal Moderno

As ruas, um formigueiro humano. A 25 de março, o nosso shopping a céu aberto, ferve em dia de chuva. As árvores revestidas de milhares de lampadinhas cintilantes. As gentes, numa correria, atrás de coisas pra comprar. Vai-e-vem alucinante. Nem parece que é só o fim do ano. Mais parece que é o fim do mundo.

A gana de consumir. A ânsia de se entupir. Desejos descontrolados. Mas não é só isso não.

Nos viadutos, crianças, homens e mulheres imundos. Cachorros abandonados, esfomeados e querendo atravessar a rua. Os cristos do cotidiano. Carros velozes, motoristas ferozes. E segue homem-tração puxando sua carroça abarrotada do que sobrou por aí.

No rádio, na TV e nos jornais, muita notícia de irmãos flagelados. A natureza se vingando. As águas inundando. A correnteza levando tudo. Natal dos contrastes.

E pensar que, há mais de dois mil anos atrás, nascia o aniversariante, que hoje em dia nem sequer é muito lembrado não. Ele que nasceu num pasto, dormiu num cocho e era de uma família sem teto.

"Não espere o Natal chegar para refletir sobre a bondade, amor, paz, amizade, esperança, fé, sinceridade, verdade, sabedoria e união".

Refúgio

Idos de 1969. Primeiro ano clássico, vinte e dois alunos. Período noturno. A classe: uma sala construída para ser uma espécie de almoxarifado, no fundo da escola. Na falta de outro lugar, instalaram nossa turma nesta sala. Primeiro, provisoriamente. Depois, definitivamente. Logo apelidaram de refúgio. Era a última turma de clássico no Instituto de Educação Prof. Alberto Conte, em Santo Amaro.

No ano seguinte, tudo mudaria para colegial. O bom de estudar no refúgio, era que os inspetores ficavam ocupados com o prédio principal e, entre uma aula e outra, era uma festa.

Certo dia, alguém teve a idéia de colocar um cesto de lixo (de cabeça pra baixo) em cima da porta entreaberta. Cesto leve, fundo de madeira e lateral de palha. Quem chegava, abria a porta e o cesto caía. Ao cair, batia no ombro ou nas costas da pessoa, para depois cair no chão. A cara apalermada do colega, a surpresa, o susto e o coro de risadas faziam alguns chorarem de rir. E a brincadeira se repetia.

De repente, entrou o próximo. Desta vez, o cesto não bateu no ombro nem no peito. Encaixou direitinho na cabeça. Num relance, a classe emudeceu e o que era graça virou perplexidade. Era nosso diretor! Tirou bruscamente o cesto e, numa palidez mortal, perguntou: “Quem foi o engraçadinho que fez isso?”. Num ataque de raiva mal dissimulada, ele insistia para o autor se acusar. Ameaçava suspender a classe toda se isso não ocorresse. Era tempo de provas! “Todos somos culpados”, alguém arriscou. Afinal, todos estávamos nos divertindo! Lentamente, um a um, fomos saindo. Diretamente do refúgio para a diretoria...

Uma teclada certeira para uma pedalada inesquecível

A bicicleta foi inventada no século XIX na Europa. Consta que são cerca de um bilhão de unidades em todo o mundo.
Um sistema de transmissão por corrente, mecanismo físico principal que aciona as atuais e modernas bicicletas, idealizado por Leonardo Da Vinci.
Um dia de sonho e sol: da Ponte Octavio Frias de Oliveira rumo à USP
Para ela, o objeto de desejo era ter uma bicicleta de marcha. Cara ao vento e corpo castigado. Só com um rim, já foi atropelada e até facada levou. Sua ‘magrela’ é seu meio de transporte. Ecológico, saudável e barato.
Fazendo frio ou calor ela segue pedalando.
"Sonhos são como mapas dos ciclistas que buscam novos rumos mais saudáveis".
Na passagem do ano o empenho em inscrevê-la para participar do Biketour. Começou à meia noite do dia 31. A página estava lenta. O calor era demais. A inscrição não completava, dava erro toda vez e o suor escorria. A blusa empapada. Recomeçar com todos os dados. Travou. Nova tentativa. Fogos espocando. Ano novo chegando.Ufa! Inscrição realizada com sucesso! Aos vinte e nove minutos. Trinta e sete minutos de primeiro de janeiro e as 6000 inscrições já estavam esgotadas!
Dia 25 de janeiro de 2010. O dilúvio paulista deu lugar a um sol brilhante e festivo.Lá estava ela, firme no guidão da sua nova bicicleta com marcha.
Pedalando no aniversário de São Paulo. A Ponte Estaiada era o palco. Os ciclistas, personagens principais neste cenário de uma São Paulo que acolhe e desafia. Desta vez, um congestionamento mais que saudável.

Um dia de sol e névoa

Movidos a interesse pela cultura e poesia, lá estávamos nós. De estação em estação. Instantes poéticos. Dia de sol e céu diáfanos.Contrariando todas as previsões.

Da estação Granja Julieta até Rio Grande da Serra.

Craques em saltar dos vagões e também em se arremessar vagão a dentro para garantir lugar sentado. No fim, já éramos ‘os outros’. Vendo e rindo de tudo em nosso melhor espírito gregário e solar.

Pegar o ônibus no ponto final ao "lado" da Estação de trem de Rio Grande da Serra, próximo à farmácia. Lanchinho e caipirinha, que ninguém é de ferro. Ali mesmo no ponto de ônibus. Conversas e poesia, que é preciso se ocupar enquanto espera.

Vila de Paranapiacaba, que em tupi-guarani significa “lugar de onde se vê o mar”. É a única vila ferroviária do Brasil conservada desde sua fundação. Cidade tombada pelo Patrimônio Histórico Cultural, implantada na segunda metade do século XIX. Repleta de belezas naturais do bioma Mata Atlântica.

Ao chegar o tempo mudou. De sol para ‘steampunk’ (vapor em inglês). Uma névoa pra ‘fog’ inglês nenhum botar defeito.Cidade alta e cidade baixa. Reforçamos os músculos da coxa num ‘step’ infindável. A réplica do Big Ben londrino, a Maria Fumaça, a beleza da mata atlântica mais o perfume dos lírios e plantas, tudo isso impregnava nossa alma de sensações indescritíveis. Visitamos curiosos o Museu Castelinho,o Antigo Mercado, e o Clube União Lyra-Serrano,entre outros pontos.

Pausa para o almoço, leituras de poesias e reflexões sobre o Modernismo. Impossível não se alegrar.

Semana da enfermagem

Promovendo e prevenindo

A saúde desta gente

Com ciência e muita luta

Vai cuidando do doente

Pondo sempre a mão na massa

Alivia a dor presente



Da questão existencial

Do homem ele responde

Seja trabalhando em grupo

Para o pobre ou pro visconde

Com muita dedicação

Não importa nem aonde



Enfermeiro genial

Celebra com maestria

Todos lhe são muito gratos

Parabéns pelo seu dia

Tudo vibra com leveza

Muita paz e harmonia


12 maio Dia do Enfermeiro

Saúde no ambiente

“Tonico!”, ele chamou. O cachorrinho ‘marrom brilhante’, nem se moveu. Encantado, permaneceu sentado com as patas dianteiras cruzadas, diante daquela fileira de gente. Atrás das gentes, o mendigo mais outro cão. “Este é o Tinoco, são gêmeos. Não vou dar a mão pra vocês porque dentro do meu coração estou junto de todos”, discursou .

Domingo ensolarado de total biodiversidade. Céu azul num cenário feérico.

Filhos cidadãos desta São Paulo, sensibilizados sobre a situação dos mananciais.
Perfilados diante da Represa de Guarapiranga, às margens da avenida Robert Kennedy, crianças, jovens e velhos. Um ato de amor à natureza. Um protesto pela situação de degradação dos mananciais.

Foto da web

Multidão ‘total flex’. Alegria em participar. Tristeza em constatar.

Nascemos com 80% de água no corpo. Com 5 anos temos 70%. Depois dos 60 anos, temos 58%. Sem água, secamos e morremos como as folhas do outono.

Nosso planeta é coberto 75% de água. Consta que só 1% é de beber.

Nesta imensa caixa d’água , que abastece mais de 4 milhões de habitantes, o céu espelhado na água resplandecendo nas ‘macrófitas’(aguapés). Plantas que se alimentam de poluição e cobrem boa parte desta represa. O custo do tratamento da água que bebemos é altíssimo.

Multidão ‘total flex’. Alegria em participar. Tristeza em constatar.

Nascemos com 80% de água no corpo. Com 5 anos temos 70%. Depois dos 60 anos, temos 58%. Sem água, secamos e morremos como as folhas do outono. Nosso planeta é coberto 75% de água. Consta que só 1% é de beber.

Do lado de lá, a avenida com seus carros velozes e acidentes atrozes.
O asfalto seco e árvores que teimam em resistir ao monóxido de carbono.
Pulmões catalisadores?

‘Tonico e Tinoco’ não são militantes.Intuem que sem água ninguém vive.

Não jogar lixo nas ruas, não aceitar que o esgoto deságüe na represa.
Por uma metrópole mais arejada. Por um caminhar, pedalar, e respirar melhor.

Uma tarde no circo



No crepúsculo da existência, intransponíveis ausências. Pernas bambas.

‘Senhorinhas’ do Lar Jésus Gonçalves. Se somar todas as idades, ‘seculum seculorum’.

Na represa de Guarapiranga, o circo Spacial. ‘Hoje tem goiabada?- Tem sim senhor. E o palhaço o que é?- É ladrão de mulher’.

Chegam claudicantes, radiantes. Bengalas pra que te quero. Ombro amigo tão sincero. Curiosidade que alegra. A gravidade, um desafio. Mais vale a suavidade. E viva a diversidade! Rara distração e muita superação. Tremenda descontração.

Aplausos. Tchauzinhos. Caras e bocas. Riem muito dos eternos palhaços. Espantam-se com a ousadia dos trapezistas e o talento dos malabares. Mágicas que intrigam, acrobatas que fascinam. Bailarinas que voam como seus pensamentos. Mais palmas para este espetáculo de luzes, ilusões modernas, picadeiros, equilíbrios e muito contorcionismo. Mandando a solidão pro espaço, apreciando a pipoca, sem querer voltar pra casa.

A primeira vez no circo é como um salto ornamental. Inolvidável. Um dia para sonhar e brilhar.

Um salto no espírito e garantia de ilusões encontradas na beleza deste dia ensolarado no inverno desta vida. Receita pra esquecer as dores e retornar à infância perdida.

Cai a tarde e bela lua cheia encerra o passeio, sinalizando um amanhã repleto de momentos para lembrar e contar.

São mulheres simples. São mulheres fortes.

E pra todas muita sorte.

Um muito obrigado a todos que colaboraram para que este momento se concretizasse.

26.06.2010

Conselho Gestor da UBS Veleiros promoveu passeio ao circo com as idosas do Lar Jésus Gonçalves

Vonô Nonô



No dia que o Paulo nasceu lá estava você. Chorava e me dizia: “Obrigado por ter me dado um neto!”. Tão meigo, tão sensível... De padre a "coroinha", no alto da sua cabeça. Nasceu vovô. Tão semente. Tão legal. Brincava com a gente, brincava menino: "Vinha vindo por uma estrada, topei com um pé de jaca, e toca a apanhar pêssego maduro! Vortei. Vortei prá trás...". De sargento e eletricista a zelador da Biblioteca Kennedy, na Avenida João Dias.



Na volta atrás, um dia de carnaval. Nós, assanhadas para ir ao salão do SAI Interlagos. Você se prontificando: “Vou junto, para tomar conta de vocês". Chegando lá, só vendo: foi o primeiro a cair na dança e o último a parar. Nem para tomar um trago e matar a sede. Dançava, cantava e pulava ao som da orquestra. "Tomara que chova três dias sem parar". Vontade de ir embora? Nenhuma. E o povo: “Que energia, hein vovô?”. Lembra que você tirou a moça da mesa ao lado para dançar? Nem viu a cara do marido dela. Tomamos conta de você.

Parece que tô vendo: você subindo e descendo a rua com o neto de dois anos pela mão. “Vou dar uma canseira nele, senão num dorme!”. E te vejo brincando. As crianças fascinadas. As netas agarradas. Você chorando à toa. Tão à flor da pele. Fazendo arte. Espantando solidão. Celebrando amizades. De padre Lúcio, da Santa Casa de Santo Amaro, a chá da tarde com Júlio Guerra. O quadro por ele presenteado, eternamente na parede de sua sala. Maior orgulho. Tanta fala, tanta vida. Seus intermináveis passeios pela Alameda Santo Amaro e tantas paradas obrigatórias. Simpatia pra dar e vender.


Um ritual de passagem. Você tomando sol. A rua fazendo fila para cumprimentá-lo. Boas vindas, do retorno do hospital, já morando em Leme. A Lúcia preparando a sopa de carne na Sexta-Feira Santa. "Ele pode", disse ela. E o seu penico, que tinha nome e sobrenome? "Tonico Bastos", antigo desafeto, político regional.

A UTI. Você se preparava todo. Não tanto na parte visível do corpo, porque nem tinha esta parte visível. Uma infindável memória de dias melhores na pele. Sobretudo o fumar, que lhe dava, digamos, certa nobreza de estar em si mesmo. Um inquilino perdulário daquele metro e sessenta e cinco de altura. Agora um lagarto. Você ali, preparando-se lentamente, no andamento do fôlego. Ali, vivendo a véspera indecisa. Trocando a fronha, quem sabe a senha. Ali, ouvindo um murmúrio de fora, de lá daquele vento brando na relva da coxilha que já não via mais.

Agora é só saudade. Sonhador que volta ao sonho.

Vó Tutinha

Para ela a fé e a Igreja estavam acima de tudo. Calo
nos joelhos até. De tanto rezar. Terço e rosário.
Fazia hóstias, arrumava o altar. Biscoitos pro padre. Uma santa, diziam.
Ficou órfã precocemente e foi educada pela irmã mais velha a vó Abília. Casou-se aos 18 anos. O marido, vô Américo, morreu aos 36 anos de idade. Nessa ocasião, os parentes ricos queriam adotar seus filhos. O mais velho tinha 11 a caçula, tia Dandá, seis. Nem pensar, ela disse. Não vou separar meus filhos por nada deste mundo. Trabalhou duramente criando os treze filhos sozinha. Tá certo que nem todos vingaram. Restaram quatro. Dois homens e duas mulheres. Naquele tempo, crianças morriam fácil, fácil. De febre vacinal, diarréia e icterícia.
Da sua boca aprendemos a rezar. Todos de joelhos em frente ao oratório ao entardecer. Quem sentasse em cima dos joelhos levava um beliscão. Um cochilo aqui outro ali, que ninguém é de ferro. Muita missa e procissão com velas e figurinos de anjinho....
Índia, era o que contavam. O vô Américo, filho de negra com português, de olhos verdes e cabelos carapinha. Bom sapateiro. Partiu precocemente e a deixou cheia de fé, de filhos e problemas com o caçula.


Tadim, assim o chamavam porque tinha muita dor de barriga e chorava sem parar.
Uma vida inteira trabalhando e rezando sem parar. O filho caçula, pra mal dos pecados, depois de grande, cometeu pecado capital.
Vó Tutinha morreu de derrame aos 62 anos.
O nome de batismo era Conegundes Maria Fernandes.

Vicking


Ele chegou numa caixa de presente. A madrinha não se conformava que o afilhado não tinha nenhum animal de estimação. Não era pra ficar. Se a mãe nem tinha tempo para cuidar do filho, quem dirá de cachorro. Não teve jeito. Presente dado, com laços de fita e tudo, era coisa de se aceitar. Queira ou não queira.

Um cachorrinho bem bonitinho, peludinho, amarelinho e de olhos azuis e rabo de espanador. Quem iria resistir? Raça? Um mistério, mas era lindo. A mãe dele, uma pastor belga, pôs o traseiro no portão e, lá se foi o desejo incontrolável em tempos de cio selvagem. Tudo resolvido nasceu o Vick. Chamado assim porque de tão loiro e olhos azuis parecia mesmo um vicking. No dia em que chegou , chorou muito de noite. Foi necessário deixá-lo dentro de casa. Só parava se alisado na barriguinha. A família toda refém dele, para não incomodar a vizinhança. Cresceu nervoso e tinha claustrofobia. Para ir ao veterinário, só com calmante. Mesmo assim vomitava e se debatia sem parar. E não suportava solidão. O jeito foi deixá-lo na chácara. Quem sabe com mais espaço e liberdade... Lá, o caseiro vivia em apuros atrás dele. Saltava alambrado subindo na caixa d’água. Voava em busca de novos horizontes. Muito baixinho e de pernas tortas. Um SRD de muita coragem.

Uma vez em São Paulo, ladrão surgiu do nada. Do nada pulou o Vick e, foi revolver prum lado e ladrão pro outro. Logo ele, que latia tanto, desta vez atacou em silêncio. O dono, grato por toda a vida.

Vivia pegando berne e bicheira. De uma vez, o encontramos numa poça de sangue, já sem pele em muitas partes do corpo. Foram cento e vinte bichinhos tirados. Na veterinária, um sufoco para imobilizá-lo. Veloz e forte, derrubou tudo pela frente. Três pessoas para neutralizar um cachorrinho. Muita vitalidade numa embalagem tão pequena. De volta pra capital foi a alternativa mais adequada.

Num belo dia, apareceu a Helga, uma cachorrona boxer. Linda e calma a mais não poder. Tentou-se de tudo para encontrar seu dono. Cartazes, anúncios e nada. Os dois em São Paulo, dividindo o mesmo teto.

De pronto estabeleceu-se grande amizade. Como ele batia nas canelas dela, nunca nos preocupamos com castração. Passaram sete anos e eis que o improvável aconteceu. A Helga prenhe de tudo. Não deu outra. Seis filhotinhos “boxer-lata”. 

Tomadas todas as providências: vermífugos, corte do rabo e doações, ficamos com a Lea. Nasceu tão fraquinha e era tratada com vitaminas e leite na chuquinha. Uma leoa. Cresceu escalando alambrado, muito ciumenta e esquentada. Era só alguém olhar pra Helga ou pro Vick,que ela atacava-os impiedosamente. Não se passou nem seis meses, a Helga grávida de novo. Esse Vick gostou mesmo de ir no guincho. Mais oito filhotinhos.

Dessa vez ficamos com o Urso. Gordinho, guloso e amarelinho de olhos claros. Um urso mesmo. Adora ficar em pé e abraçar.

Em menos de um ano quatorze filhotes! O jeito foi castrar o Vick. Transar foi sua maldição. Quanta dor e humilhação e ainda ter que agüentar aquele colar elizabetano. As brigas entre a Lea e a Helga ficaram fora de controle.

Lea foi pra chácara junto com o Vick. Afinal os dois eram muito barulhentos e levados da breca. Lá, um caseiro free-lancer para trocar a água e ração diariamente. Mas os dois brigavam sempre. O ciúme da Lea só aumentou apesar de mais espaço e liberdade. No olhar do Vick, uma tristeza pela saudade de sua companheira Helga.

Para compensar, ele e a Lea ganhavam um osso por semana. Cada qual num lugar. A Lea dentro da cozinha com a porta fechada e o Vick lá fora. Nessas ocasiões, ele abanava seu rabo de espanador e virava de barriga para ser acariciado. O olhar translúcido de saudade.

Numa noite de tempestade e trovões ninguém ouviu a briga dos dois. Os ossos do mundo, uma armadilha. Morto a dentadas pela filha ciumenta. Os pêlos ensopados acariciados pelo sol do amanhecer. Não mais abanar o rabo-espanador, não mais deitar de costas para alisarem sua barriga. Morreu aos doze anos e deixou a Lea muito machucada para ser sacrificada. Desculpe, Vick não consegui trazer você de volta para sua Helga.

Um ósculo e um amplexo



Um ósculo e um amplexo

Querida vó Tutinha,

A senhora me pediu para escrever amiúde. Não deu. Andei atarantada por aí. As voltas que o mundo dá. Sabe o ferro que era de ferro, que a gente punha um prego atravessado para ele não abrir? Agora é a vapor. Muito leve e ainda assim se chama ferro. Estira bem sem ser pesado. Fogão a lenha, só se for luxo. Usamos a gás. Perigoso é. De tempos em tempos explode algum por descuido do dono e vai tudo pelos ares.

Lembra que a gente esfriava mamadeira das crianças no rego d'água? Geladeiras são comuns. Com degelo automático. Nem dá trabalho pra descongelar. E as panelas então? Já vem tudo areada, de inox e até de vidro. Tanto progresso que só vendo.

As moças, vó, não usam mais casar. Só usam. E ninguém acha sem-vergonhice não. Aquilo que a senhora achava um pecado cabeludo, hoje é uma atividade normal. Assim como respirar, andar ou beber água. Engravidar? Tem perigo não. Tem remédio pra tudo. E até uma tal de pílula do dia seguinte caso dê azar. Ruim é a tal da AIDS. Muita gente que pegou. Pega no contato sexual e em transfusão de sangue também. Lembra que o pai tinha sífilis e que eu quase nasci cega? Que meu olho por dois anos era só pus? Não fosse Santa Luzia... Pois é, essa doença de quatro letras é muito pior e ainda não tem cura. Por ora a indústria de remédios é que vai lucrando.

A grande devoção é a uma entidade chamada Mercado. É comum a gente ouvir: "o mercado está nervoso", "o mercado tá em crise", "o mercado oscilou" e por aí vai.

Bar é oratório. Fiéis perfilam-se diante de prateleiras cheias, iluminadas com todas os matizes de cores. Lá permanecem até o amanhecer, afogando as mágoas.

É comum ver gente falando sozinha nas ruas, nos pontos, nos ônibus e dentro dos carros, que a senhora chamava de "máquinas". Tão loucos não, vó. É um aparelhinho chamado celular que inventaram para a comunicação com as pessoas. Funciona como um brinco, já que ninguém o tira da orelha. É sucesso absoluto e ninguém mais escreve cartas.

A cidade  de São Paulo é um colosso. Somos pra mais onze milhões de habitantes e a sexta maior aglomeração urbana do mundo. Cada arranha céu mais bonito do que o outro. A gente pobre espirra para os arrabaldes, se amontoando como dá. Tanta favela! Chamam “comunidade” e vivem se incendiando por aqui.

Especulação imobiliária é fogo.

A senhora reclamava dos botequins que só serviam para desencaminhar os moços. Outro dia, num boteco, ouvi perguntarem para um freguês porque ele batia na mulher. "É para ela deixar de ser feia", ele respondeu. Tem jeito, vó?

Cidade grande tem de tudo. Gente boa e gente ruim. Mas, a maldade tá solta. Dizem que a violência cresce porque as pessoas não se conhecem, não se gostam e não se tocam. Solidão na multidão.

Um ósculo e um amplexo, da neta que muito a estima.



Transporte em São Paulo



Na represa Billings, perto da Escola de Emergência São Benedito, tinha a canoa do Zezinho. Ao menos uma vez por semana, ela e ele remavam até o outro lado. Uma cachoeira e as casas dos ricos eram as atrações. Navegar não é preciso.



E tinha também o bonde. À noite, o curso clássico, no Alberto Conte.

Chegou março de 1968 e o bonde morreu. Bem ali no Largo 13, onde, hoje, centenas de camelôs e seus clientes de pouca grana e muita fama se movimentam. Essa massa humana movimenta-se ainda mais rápido quando chega o "rapa". Que força nas pernas, meu! Que categoria nos braços com toda aquela tralha! Quanto equilíbrio na corda bamba da vida. Nessa olimpíada, essa turma é ouro. Ouro de tolo.



Numa quase meia-noite, ela no ponto de ônibus da Praça D. Benta. Bem atrás da Santa Casa de Santo Amaro, do lado do necrotério. A pilha de livros nas mãos. Pra quê tanto caderno, meu Deus? O ônibus chega e vem cheio. Lugar só para um pé no degrau. Mas dá pra subir. O outro pé fica pendurado. Material num braço e o outro com a mão livre pra segurar na porta. O ônibus parte e faz a curva para pegar a Rua Isabel Schmidt. O peso do mundo desaba sobre ela. A gritaria é geral. O motorista, que não era surdo nem nada, pára. Mas se engana quem pensa que ela caiu. O homem ao lado, agarrou seu rabo de cavalo e a manteve suspensa no ar. Material escolar estatela-se no chão. Tudo recolhido, segue transportada. Lugar mais à frente do ônibus apareceu do nada. "Que rabo forte, hein?" - um falou. "Essa foi por pouco".

Táxi era coisa rara, ainda mais praquelas bibocas. Não iam lá por dinheiro nenhum. Transporte certo era o "SPédois". Em tempos de Karman Guia.


Agora todos plugados, distâncias encurtadas em muitos megabites e esta demora para chegar. Os carros, bibelôs de asfalto.

Da canoa do Zezinho à cidade dos helicópteros, cuja frota só perde pra Nova Iorque. Ainda assim, 1/3 dos deslocamentos nessa cidade ainda é a pé.






Talentos da exclusão

O trânsito anda pela hora da morte, como diria a vó. Despende-se o triplo do tempo no trajeto. A cidade ferve na tarde gelada. Perueiros são como abelhas. Passam zunindo. Os passageiros vão sendo engolidos por esta modalidade de transporte. Na perua, uma cena curiosa: um homem se levanta e cede lugar para uma senhora. Ela lá em pé, impassível. Ele intrigado: - Não vai sentar? E ela: - Estou esperando esfriar... Ele já irritado: - Então fica aí que eu mesmo sento enquanto esfria... O cobrador, um “alto-falante” humano, cara e tronco pra fora da janela, grita: “Vai terminal, sobe a Alameda, Largo Treze?”
Já no ônibus, sucedem-se as mais diferentes profissões: vendedores (de balas, salgadinhos, decalques), pedintes, aleijados, cegos, surdos e até um mudo com seu ajudante-orador.
Entram e pedem para passar por baixo da catraca. Deitam de cara pra cima e rastejam. E com que desenvoltura! A ‘roleta’ é quase rente ao chão... Levantam-se rápido e discursam: “Senhoras e senhores! Desculpe estar aqui falando. Não quero atrapalhar a viagem de vocês. Estou desempregado, tenho filhos pra sustentar... Pedir não é vergonha! É melhor do que roubar algum trabalhador ou uma senhora, né? Vamos ajudar o próximo que Deus vai lhe devolver em dobro! Aceito ticket, moedas. Pode ser 1 real, 10 centavos, um alimento, qualquer coisa me ajuda”.
Deste modo, vão convencendo um ou outro a doarem suas moedinhas ou a comprarem suas coisas. Muitos dos passageiros fingem não ouvir, tamanha a freqüência com que entram e descem, num estranho balé humano. Homens, mulheres, tocadores de gaita, jovens vestidos de palhaços, idosos: verdadeiros artistas, neste palco sobre rodas. Talentos da exclusão.
Lá fora, os puxadores de carroça disputam o asfalto com os carros velozes...

Sem água não dá não



"Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e
de repente você estará fazendo o impossível".São Francisco de Assis

Para ele a natureza fala. Tem a rua como casa. O céu como teto. Da TV da loja, ouve falar de gripe aviária, do degelo das geleiras, de uma tal de febre aftosa ou maculosa e das mudanças do clima. De clima ele entende. Mais de 30 anos morando nas ruas. Desse ambiente, sua natureza sobrevive. Cata tudo por aí e vende no ferro velho. Um dinheirinho de nada que dá pra comprar uma “barrigudinha”. Sem a cachaça “ninguém segura esse rojão”.

Rojão das queimadas que aumenta a poluição. Poluição que é o lamento do meio ambiente que geme e faz gemer as crianças e idosos sem inalação. Geme pelo lixo que essa gente produz e que lhe garante a pinga de cada dia. Pinga que lhe aquece e lhe desgasta a natureza cansada de viver à míngua.

O córrego fedido. Parte dele e a grade da ponte, seu apoio, sua bengala. Cai o esgoto que vai. Vai pra represa. Represa que manda água pras torneiras dessa gente. Nem as aves escapam. Outro dia, viu uma pomba branca beber a água do córrego e morrer logo em seguida.

A situação está ficando quente. Tanto asfalto, tanto córrego canalizado. Cidade impermeável. Antes, era só São Paulo da garoa. Agora o grito da natureza. Muitas queimadas e mais pássaros diferentes na cidade. A cada dia que passa. Antes, só pardais. Hoje, bem-te-vis, colibris, curiós, pica-paus e até gaviões. O meio ambiente respondendo com enchentes, deslizamentos de encostas, meninos morrendo. Anjinhos ao léu.

Catando tudo por aí, segue pensando: tudo que é demais estraga. Cai a chuva, cai a ficha. Sem comida até que dá pra agüentar um pouco. Sem água não dá não.

Barrigudinha:pinga vendida a R$ 1,50 em garrafa plástica transparente com bojo em forma de barriga.

Receita de carinho & pizza enrolada, em segundos devorada

Ingredientes

Gente que vale a pena
Porção de alegria (a gosto)
Quilos de bondade
Amizade em profusão

Recipiente: Casa da Zu e do Zé, com muita harmonia e flores.

Recheio

Amor ao próximo
Boas risadas
Quanto baste de vinho
Quanto baste de refri
Doses dupla de espontaneidade
Um brinde a todo instante

Montagem

Mãos de fada da Zu
Boa vontade do Zé

Modo de Preparo

Coloque a alegria em servir, mais uma noite abençoada. Adicione a gente que vale a pena. Acrescente os quilos de bondade. Junte a profusão de amizade, que dá liga faz tempo. Deixe descansar das atribulações desta vida. Cubra com bastante amor ao próximo. Sobre o amor ao próximo, coloque boas risadas. Regue com vinho, refri ou água. Enrole. Pincele com as doses de espontaneidade. Salpique com um brinde a todo instante.
Leve ao fogo da paixão em celebrar

O sorriso da alma

Conta-se que Santa Apolônia, a padroeira dos dentistas, foi mártir da Igreja Católica e que, para manter sua fé, foi torturada, sofreu fraturas no rosto e teve os dentes quebrados.

O dentista garante a integridade dos dentes, a limpeza e profilaxia. Hoje prevenção, ontem extração. Hoje restaurações, clareamento, implantes, essas coisas "high tech". Ontem, soluções caseiras: pinga no buraco do dente, um minuto, remedinhos, "tiro e queda". Panela no dente instalada, era só extrair e pronto.

Para ele, ser dentista era a razão de ser. Atendia ouvindo ópera. Vê se pode. Quando não, a Voz do Brasil. Tem notícias interessantes, dizia ele.

Pacientemente, naqueles idos de 70, no Bairro de Campo Grande, Avenida Nossa Senhora do Sabará, laborioso nesta São Paulo desbocada. Entre resinas almagmas e dentaduras postiças, seguia amealhando clientes e amigos. Algumas bocas ficaram famosas. Ana Paula Arósio que o diga.

Bom atendimento e parcelamentos na base da palavra dada, que SPC não tinha não.

O instante das coisas. O tempo de uma piscadela e a maturidade se instalando junto com a aposentadoria. A vida correndo como as águas deste verão que se encerra.

O outono da existência, um troféu das experiências vividas. O cuidado com as bocas. O sorriso que motiva, ensina, encanta. Sorriso da alma.

Na sala do Telecentro Malba Tahan, no Jardim Suzana, Diodi Okamoto, dentista aposentado, aprende informática e também escreve sobre a cidade de São Paulo e sua gente.

O set dos pombinhos

“A coisa mais certa de todas as coisas, não vale um caminho sob o sol” - Caetano Veloso

O evento da natureza dá a iluminação e o tom da moda. No crepúsculo deste entardecer dourado é a cor. São Paulo das artes, cultura e gastronomia. São Paulo dos imigrantes e das migrações de aves. Pombos: vira e mexe você topa com eles.

São Paulo das enchentes e também de um pôr do sol deslumbrante.

Cidade que acolhe e repele. Estrutura de telhado que pode desabar ou abrigar. Abrigo de pombos. Aves desestruturadas na história. Presentes no antigo testamento. Ausentes no coração dos homens da cidade. Símbolo da paz e do espírito santo. Pombo doméstico (Columba Lívia) urbano e repelido. Bom sentido de orientação, desorientado na urbe. Localiza seu ninho a mais de 1000km de distância. Sabe detectar som à distância que nenhum outro animal conhece. O fio condutor são os arrulhos. Arrulhos que lembram ao morador que a calha que entope e que a telha pode cair. Cocô na cabeça. Alegria da indústria de repelente de pombos: aplicar no local duas vezes ao dia. Manter fora do alcance das crianças e dos animais. “Vem pombinho, vem cagar aqui, chamou a menininha, da janela”! O set dos pombinhos não estava lotado.

Descer do telhado para a realidade dos homens. A vida por triz. Pombos regendo o dourado entardecer no telhado da Guarapiranga. Em nome do pai, do filho e do espírito santo. Amém.

O fusca

O fusca
Paulo Renato César na rabeira do fusca

Em 1973 o piloto Ronnie Peterson, "o sueco voador", ganhava o Grande Prêmio da França. Aí ela comprou seu Fusca 66. Vermelho grená e parcelado em 36 vezes. 

Vinte horas na auto escola: baixar o breque de mão, primeira e segunda. No Detran, a baliza certa e aprovação garantida. 

De noite, pegar o possante na concessionária. Onde é mesmo que se liga a lanterna?

Na Marginal Pinheiros, só xingamentos. Gente mal educada a dizer impropérios sobre sua mãe.Em primeira e segunda, ela chegou ao pódio. 

Naquela clara manhã de outono, saiu uma hora mais cedo. Pegou seu veículo e rumou para o trabalho. Era uma fábrica de macarrão que ficava na Marginal, quase esquina com a Avenida Interlagos.

Na ladeira, pof, pof, em ré descontrol. Êpa! Passou direto do ponto. As duas mãos no volante cara esticada quase colada ao vidro, aquela craqueza. De repente, o rio Pinheiros no meio. Como retornar? Uma hora esse rio tem que acabar. Nesse pique, chegou na Lapa. Só aí é que se deu conta que o retorno só poderia ser por uma ponte. Um guarda pulou. Caderninho de multa voou. 

Ufa! Enfim conseguiu pegar a marginal de volta. Atrasada duas horas! Os tímpanos já imunizados aos palavrões. Mãos firmes no volante, pernas travadas. Primeira e segunda. Enfim a firma onde trabalhava. 

Não havia focos de lentidão como hoje. A surpresa era uma aglomeração em frente à fábrica. Seu Adrimon, da portaria, muito solícito lhe abriu as duas bandas do portão de entrada dos carros. Mirou bem e acelerou na direção do portãozinho de pedestres. Foi só manifestante que voou. Nova ré descontrol

Barbeira, eu? Deixou o carro atravessado na rua e entrou a pé mesmo. Seu Antonio, o motorista de caminhão, foi quem colocou o carro pra dentro. Passava do meio dia. Coração na boca. Pernas bambas.

O padrinho

Diz-se que nasci muito doente em função de uma sífilis mal curada do meu pai. E nasci em casa. Quase cega e cheia de furúnculos pelo corpo todo. A cabeça parecia uma bola de borracha (sem calcificação). A mãe me escondia das visitas. Era sempre igual: a pessoa chegava, olhava, fazia aquela cara de piedade e dizia: - Que engraçadinha! Também ela (a mãe) achava a menina muito feia. A pele esverdeada e os olhos saltados, sempre cheios de pus, lembravam um grilo. E como não melhorava e a todos dava pena, resolveram batizá-la em casa mesmo. Havia um mendigo que buscava comida lá em casa. Antonio Felpudo, assim o chamavam. Quando chegava, perguntava: - Como vai minha rosa branca? Nem sei se pelo carinho ou pela urgência, minha mãe pediu para ele me batizar junto com a minha tia. O batizado consistia em pegar a criança no colo, acender uma vela e repetir, mais ou menos, o ritual do padre. Por incrível que pareça, fui melhorando. Escapei. Do meu padrinho, lembro que, quando aparecia, me trazia coquinhos que ele catava e incluía nas “tranqueiras” que guardava no seu imenso saco. Eu era a única afilhada do “homem do saco”. Um dia sumiu para nunca mais voltar....

Nem te conto

Estamos todos assanhados para aprender informática.

A sala cheinha de gente. Gente cheinha de experiência. O local: Telecentro Malba Tahan, na Biblioteca do mesmo nome, em Veleiros, Capela do Socorro.

O duro que é uns estão com pouca acuidade visual. Outros com a audição um tanto avariada e todos com alto colesterol e algumas câimbras inexplicáveis que acabam surgindo no meio das explicações.

E por falar em explicações, após tantos: - 'hein(?) e não tô vendo'- a professora Gisele ensinou logo a clicar em ' Ver e Ampliar', uma lição imprescindível.

Algumas vezes, perdemos o fôlego porque clicamos mal e apaga tudo. Não queremos passar vergonha. Pressão a mil.

Leques, garrafinhas de água e muita sudorese pra ninguém botar defeito. Olhos estatelados na tela e mão descontrolada que teima em apresentar 'mal de Parkinson' bem na hora de arrastar o tal do 'mouse'e clicar. Êta nóis! Devia ter desfibrilador nessa sala. Má circulação, taquicardia e uma ânsia de saber. Não temos tempo a perder.

Para aulas de 'HTML avançado', a presença do cardiologista devia ser obrigatória. Ser um internauta é perigoso.

A Gisele passou semana inteira se esgoelando: 'Cliquem em Ver e Ampliar'.

Na sexta-feira seguinte, não é que tinha um cara na porta do Telecentro entregando panfletos: "Exame de vista grátis e óculos em suaves prestações".

Nem te conto!

Mãe Maria

A mãe Maria, sempre alegre e caridosa. Sonhadora e otimista. Nasceu num cafezal. Sua mãe tinha quinze anos. O pai, dezesseis e era filho dos donos da fazenda. Assim que ela nasceu, eles expulsaram sua mãe que se chamava Ana. Nunca permitiram que ela visse a filha. Capataz da fazenda nem deixava entrar. Dizem os antigos que a vó Ana era muito bonita, pele de veludo, olhos puxadinhos. Parecia chinesa. Depois contaram que ela desistiu de procurar a filha e foi forçada a se prostituir para viver. Bonita, não tardou a ganhar dinheiro e consta que foi morar na França. Se é verdade, se é mentira, ninguém sabe ninguém viu. Vó Maria, só depois de adulta e no dia do casamento ficou sabendo de sua condição de bastarda. Isso porque recusou-se a casar com velho fazendeiro que arranjaram pra aumentar as terras. Teimou em casar com o moço da cidade. Foi deserdada.

Viveu alegre bebendo das aventuras do marido e tendo filhos sem parar. Mãe até debaixo d'água. De idas e vindas, de bonanças e tempestades até São Paulo. Lutando pela criação da filharada. Acolhendo mães solteiras que não tinham onde ficar depois de expulsas da casa pelos pais.

Trabalhou como doméstica, caseira do dono da Metal Leve, cozinheira na Santa Casa de Santo Amaro, teve restaurante próprio e banca de pastel.

Do restaurante de comida caseira só ganhou dívidas. Comida caseira deliciosa para quem quisesse repetir ao preço mínimo. "Mais um ovo meu filho! Repita o bife que está gostoso!" Um dia, o policial militar enorme veio pegar a marmitex. Ela disse: 'Um beijo, meu filho'. E ele: aonde, mãe? 'Na bunda', ela responde. Todos caem na gargalhada. Os evangélicos comensais enterram a cabeça na bíblia...

Trabalhando até o fim. Vivia alegre com muitos amigos, muitos cachorros e até galinhas. Mas, o coração doía. Tinha 75 anos, uma viuvez, alguns namorados e um novo marido quando morreu. O corpo foi levado ao velório pelos filhos, netos e um cortejo de amigos homens inconsoláveis.

O penico

A Loja das Folias era mesmo uma folia. As coisas, empilhadas no chão de cimento, encerado com vermelhão e em cima de plásticos, que prateleira não tinha não. Tinha de um tudo: roupas, panelas, cordas, lampiões, redes, pratos, talheres e, penicos. Competia às vendedoras meninas moças, acompanhar o cliente e ajudá-lo a carregar a compra até o setor de pacotes. Ah, trabalhar no pacote, o objeto de desejo de todas elas. Era o lugar mais limpo e discreto. E ninguém tinha que andar pela loja segurando um penico pela alça.

A rotina: no alvorecer, levar as duas pilhas de penicos (uma esmaltada e a outra de alumínio) e deixar na frente da loja, em destaque. Como ninguém gostava e dava vergonha, esta tarefa era feita por sorteio. Cada dia da semana uma garota 'sortuda', bem cedo, ao alvorecer, tinha que levar as pilhas e postar na entrada da loja. Na boca da noite, ao escurecer, a obrigação era recolher os bispotes para o interior da loja. Fim do expediente, que era das 7h às 19h (E hoje em dia, ainda falam em crise...).

Ano 1965, a Loja das Folias funcionava na Barão de Duprat em Santo Amaro. Em frente ficava o ponto final do ônibus Pedreira. Ela era a balconista mais jovem. Tinha 15 anos, pagava I.A.P.I. e ganhava metade do salário mínimo. Assim era a lei, que ECA não tinha não.

Naquele dia, trajava saia justa vermelha, blusa branca de jabot (voltou a moda) e usava delicada sandália, com saltinho de metal. Tac-tac-tac. Num átimo, era só pegar a pilha de urinóis e entrar correndo antes de alguém ver. Num átimo a estratégia falhou. Escorregou. Caiu de bunda. Na queda, seu pé esbarrou nas pilhas e lá se foi penico pra tudo quanto é lado. Bem no meio da rua. O som dos penicos rolando no asfalto doeu na alma. Ninguém podia saber que se faz isso naquilo. Seu Geraldo, o gerente, gritando: “Vai lá logo recolher os urinóis, menina!” Os carros buzinando sem parar.

De relance ela visualizou a fila inteira do ônibus Pedreira, com seus paqueras habituais, rindo desbragadamente. Prostrada estava, prostrada ficou. Queria que o chão se abrisse e a tragasse como naquele acidente do metrô há pouco tempo. Que Deus a perdoe.

Foi correndo chorar no banheiro. Benedito, o menino laçador e que ficava na frente da loja, cuidando pra ninguém roubar, é quem teve que catar a penicada sob risos gerais.

Do banheiro ela não queria sair nunca mais. Já que o chão não se abriu, melhor era morrer de vergonha na privada. Os gritos do Seu Geraldo nem mais a incomodavam. Depois de muito insistirem e na certeza que a fila do ônibus já tinha entrado, ela deixa seu sonho de um dia ser promovida ao 'setor de pacotes'. Saiu de fininho.

No breu da noite alguém ainda comentou: 'Foi aquela ali que derrubou os penicos'.

Dona Nize

Nos finais de semana, seu frango com batatas era sucesso de público e de crítica. Noras, filhos e netos reunidos. À noite o jogo de carteado era levado a sério. Tão a sério que tinha mesa com feltro, fichas e as apostas rolavam até a alvorada. Dizem que o pôquer é atraente por conciliar boa dose de sorte, inteligência e sensibilidade. É que os adeptos, involuntariamente, transmitem no jogo um movimento de olhos, lábios, cabeça, tremor de mão e muito outros sinais involuntários. Daí que os pios, os blefes e a suspeita de alguém estar "roubando", por vezes, gerava um quebra-pau danado. Quem ouvisse a gritaria nem imaginava que o valor da aposta era míseros centavos. Seus irmãos e cunhados na faixa dos "enta" ficavam "de mal pra toda vida". Entretanto, não resistiam até a próxima chamada para mais uma partida. Todos a postos ao redor do pano verde, fascinados e apostando seus centavos. A vida uma roleta russa.

Órfã de mãe muito cedo e um DNA de "gênio explosivo" como herança. Gênio este que lhe reservou alguns dissabores. Encarregada na farmácia da Santa Casa de Santo Amaro, o grande desafio era aprender o tal do cruzeiro novo, que devia constar nas planilhas. Falava duro e exigia disciplina, como convinha a um bom chefe naqueles idos. Brabeza só da boca pra fora. Se ralhava e brigava forte, no momento seguinte já estava presenteando a quem antes lhe incomodava.

Em casa, assistia à TV em preto e branco fazendo crochê colorido. Centrinhos de mesa com apliques de mini flores de todas as nuances. Um xale aqui, uma toalhinha acolá, um poncho e todos iam ganhando parte desta produção. Um olho na agulha e outro na filha caçula namorando.

Pela sua casa passaram muitos que não tinham onde ficar. Paixão mesmo era por cinema e cigarro. De tanto em tanto, caprichava numa feijoada completa ocasião em que reunia seus irmãos que foram "repartidos", ficando cada um com um tio ou tia, quando da morte de sua mãe. Seu pai, maestro no interior paulista, namorador, não demorou a casar novamente, com moça que podia ser sua irmã.

Foi casada com seu Nonô (o da história 'Vovô Nonô'), que lhe deu quatro filhos. Um matemático, outro jornalista (morto precocemente), uma advogada e outra professora.

Mas o coração e os pulmões arrefeciam. Gostava de feijoada e fumava muito. Morreu bebendo água e ouvindo música do CD novo que acabara de comprar.

Dindinha

Dindinha e seus netinhos (foto cedida por Josiley Carrijo)

Era uma trempe, dessas usadas em fogão de lenha. bem pequenina. Com cinco perfeitas panelinhas de ferro: uma chaleira, uma caçarola, uma frigideira, uma panela alta com três pezinhos e um caldeirão. Também um tachinho de cobre. Para usar, era necessário construir um fogãozinho de adobe, lá no fundo do quintal. E não faltava solenidade nestas brincadeiras!

Posta a trempe, feito o fogo, enfileirava-se as panelinhas e iniciava-se a preparação de uma série de deliciosos guisados com os ingredientes da cozinha da Vó.

Por vezes, uma travessura: uma vez, misturei terra, água , cocô, farinha e formigas. Enrolei em forma de biscoitos e ofereci à minha prima Lenir. Ela encantada, já ia comendo, não fosse a chegada intempestiva da Vó. Aí, era só arrancar um galho de fedegoso, com o qual ela dava nas minhas pernas até as folhinhas caírem.

Doía mais na alma, que no físico dessa menina de seis anos.

A Dindinha, a filha mais nova da Vó, além de tia, era a madrinha perfeita e mágica. Inventava surpresas e estava sempre a cantar enquanto trabalhava. Irradiava alegria por onde passasse. Sua fonte de bom humor era inesgotável.

Às vezes, sofria de uma terrível dor de cabeça que a deixava em prantos. Porém estas crises de choro, fosse por qual motivo fosse, eram como chuvas de verão. Passava rápido e o sol voltava a esparramar seus raios, tornando o planeta bonito como nunca...

Tinha o “poder” de acertar em cheio, nos presentes que me dava. Além da trempe e das panelas de ferro – anéisinhos, vestidos novos, que ela mesmo fazia, correntes de ouro, pulseiras. Coisas que enfeitavam meus dias e afagam minha vaidade até hoje.

O tempo, as andanças, os altos e baixos, fizeram com que muita coisa se quebrasse. Além das perdas, tantas coisas foram ficando pelo meio do caminho, embotadas pelo tempo...

Os presentes e a presença desta madrinha, mais que uma lembrança, ficaram gravados no coração e mente da criança que fui um dia, de forma indelével.



Fedegosos:designação de vários arbustos pequenos, alguns leguminosos

De pequenas guerras a grandes curas

suely schraner


O Brasil tem 6,5 milhões de pessoas com baixa visão e 506 mil,cegos (segundo o último censo do IBGE).

Maria da Paz, sofre de retinite pigmentosa (ou retinitis pigmentosa, retinopathia pigmentosa, RP). É uma doença genética, que ataca a retina causando a destruição de suas células. Foi perdendo pouco a pouco a visão.

Dona de uma audição apurada e memória quase fotográfica. Faz todo o trabalho de casa. Para telefonar, disca a partir do número cinco. É que ele tem um pontinho, que serve de referência. Frita o bife contando até sessenta para cada lado. Mas, é perigoso. Lava a roupa sempre cheirando. A louça, ela sente no tato se ainda tem detergente. Limpa o chão direitinho, sentindo todas as saliências. Os rejuntes ficam mais limpos do que os de quem enxerga bem. 
 
O mundo visto pelos ouvidos, vozes, cheiros e pelo toque.

Muito animada, participa do curso de cabaça no Centro de Cidadania da Mulher, em Santo Amaro.
 
No modulo "arte e cidadania", baseada na descrição e tato, fez um belo desenho da entrada do CCM (Centro da Cidadania e da Mulher , em Santo Amaro).Foi para a  exposição. Na arte em cabaça, fez uma pintura "chuva americana". Chorou porque a professora elogiou. Na dança circular,  aprende direitinho. Nos jogos cooperativos, ela e mais uma, na reta final. A companheira, muito solidária, fechou os olhos espontâneamente. Na atividade de 'paraquedas', alegria contagiante. Na rodas de reflexão é exemplo de força e alegria contagiantes. 
Maria da Paz e Edni Silva (FDNC)
Faz curso de bengala branca na Fundação Dorina Nowill  (FDNC), para finalmente ter mais autonomia de locomoção.

Quando pequena, se a professora mandava formar grupos. Ninguém a queria. Restava o grupo dos bagunceiros e repetentes. Graças a isso, acabava fazendo o trabalho sozinha, que apresentava em nome de todos. Envolveu-se e desenvolveu-se. Daí a habilidade de falar em público.

Muitas vezes a exclusão começa na própria família, que tem dificuldade em lidar com o problema e também sofre com ele.

É movida a sonhos e determinação. Faz trabalhos voluntários, é catequista e está de bem com vida. Sabe que ser incluída é poder circular pelo mundo com desenvoltura. Na guerra contra o preconceito, na cultura da paz e harmonia.


Corta, frita e dá pro gato

Um velhinho frágil de aspecto pra lá de respeitável. Cabelos em tufos brancos como a neve. Olhos puxadinhos tipo oriental. Arranjou namorada que perdeu, ao propor uma hora de sexo oral como presente de natal. Simples assim. Tentou consertar e só foi piorando, ao dizer que pagaria o quanto fosse. Prostituta não, que essa tem ’as doenças’.

Aí quem adoeceu foi ele. O estudo confirma: mil pênis são amputados por ano no país. Maioria dos casos está em São Paulo. Uma doença evitável. Nunca se preocupou em visitar o urologista. A esposa, que Deus a tenha, bem que dizia: Sobe na cadeira e pula. Se cair, ta podre. Esse era o exame do qual ainda se lembra.

No antes, já viúvo, era um tal de perder empregada. Delicadezas delas. Só porque esquentava a mão no bule de café e, em seguida as punha em suas coxas, para que vissem como estavam aquecidas. Que falta de sensibilidade dessas meninas.

Daí que veio aquela coceirinha boa. Coça daqui, coça dacolá. Uma feridinha de nada. HPV? Falta de higiene? Quem sabe? Xixi nas calças. Faz mal não. Depois seca.
Na sua juventude ninguém nem sabia o que era fimose. Quanto mais operar. Nessas partes ninguém tasca. Ouviu falar de circuncisão. Coisa de judeu. Debaixo é meu, de cima é do judeu. Falas de antanho.

De uns dias pra cá, oitenta e tantos anos e mais de sete namoradas pagas. Pegou gosto depois de experimentar a pílula azul. Agora o medo das doenças que falam no rádio.

Chega bem cedinho. Estaciona sua Variant rente ao córrego que dá para a Represa de Guarapiranga. É uma rua próxima da feira livre. Desliga o motor e aguarda. Assim que vê mulher se aproximando, abre a calça e a porta. Mostra a geringonça. Exibido, repete o gesto a cada dona que passa sozinha. Não entende porque algumas fazem escândalo e ameaçam chamar polícia. Pior foi aquela que disse que da próxima vez que ver isso, vai cortar, fritar e dar pro gato.

Amor incondicional de uma professora



Para ela a opção por Italiano foi a primeira coisa que lhe ocorreu quando decidiu fazer Letras.

Há mais de sete anos, a cada sábado, dirige-se para a Escola Municipal F. Doutor Miguel Vieira Ferreira, onde uma turma bastante heterogênea a aguarda. As idades variam entre 10 e 80 anos e alguns têm mesmo dificuldades físicas. Nada que impeça a curiosidade e a vontade de aprender.

Mas se engana quem pensa que ela apenas ensina o idioma. Sinaliza os caminhos da história, cultura, civilização e atualidades da Itália. E alerta para a importância de exercitarmos a delicadeza, agradecendo, pedindo com licença e sendo atenciosos. Nem precisava. Sua atitude é o maior exemplo. Seu amor incondicional uma lição permanente.

Dos valores de cidadania mantém o senso crítico e de justiça. Participar dessas aulas é um privilégio.
Durante a semana trabalha duro. Dirige escola, já estudou Direito e até trabalhou numa rede francesa de supermercados e num laboratório.

De voz suave e enorme paciência. Horas e horas em pé. Mas as costas doem. Aulas seguidas sem tempo para se alimentar. A moça magra de muito saber segue ensinando sábado afora.

Das viagens à Itália nos fala do que viu e nos ajuda a sonhar com novas possibilidades. Mantém acesa a chama do interesse e imaginação. E gosta de vulcões. “La donna è mobile”.

Com ela só não aprende quem não quer.
Ela é a Maria da Penha Freitas. Gosta de frutos do mar e não aprecia muito os doces.

Uma doçura de pessoa. Uma mãe para nós. Trabalha como voluntária no Projeto Comunitário de Cidadania Amigos da Paz.
 
 
Maria da Penha ministra aulas gratuitas, projeto NCCAPZ (Escola Cidadã e Solidária), aos sábados, no EMEF Dr. Miguel Vieira Ferreira, na Cidade Dutra, São Paulo.
Inscrições:F. 9145.1941 (Maura) ou 8834.7790 com a Marlene .



 

Minha primeira vez

Era 1977 e o clima, uma ansiedade cinzenta. A alegria em preto e branco. A realidade em tecnicolor.

Luis Pinguinha, faltou ao trabalho para ficar picando papel. O Dario fez um balão enorme em preto e branco. O Muniz saiu pra comprar ingressos pra todos.

Não entendia nada do que via. Medo da massa. Virgem de estádio. De concreto o filhinho de seis anos, louquinho pelo Corinthians. Ingresso na numerada, que seguro morreu de velho. As colegas de escritório quiseram ir. As comadres com seus pimpolhos corinthianos, também.

Entrar no Estádio do Morumbi até que foi fácil. Coração disparado. Como sair daqui no final? Em volta só emoção. Multidão cadenciada entoava: “filhos da puta, filhos da puta”. Eram “guardas” que entravam com seus cães policiais. Alinhavam-se em campo para dar mais segurança. Segurança? Engrossar esse coral. Catarse popular. Desabafos anônimos em resquícios de ditadura.

Os olhos dos circundantes a brilhar. Ovação ao plantel corinthiano. A boca a salivar. Coração a saltitar. Entra a Ponte pra enriquecer o repertório de nomes feios.

Começa o jogo. A Jurema gritava:”Geraldão, minha paixão, Geraldão, minha paixão”! Virou bordão.

Bem depois e era já, aos 36 minutos, Zé Maria bate uma falta pela direita. A bola percorre toda a pequena área e vai parar no pé de Vaguinho. De bico, ele chuta a bola no travessão do goleiro Carlos. Na volta ela quica no chão e sobe para Wladimir cabecear. Em cima da linha, Oscar também de cabeça, salva. No rebote, a bola sobra pro pé direito de Basílio. Ele faz o gol. Quebrou o jejum de 23 anos! Festa no Morumbi. No cordão de isolamento até os guardas chorando.A torcida invade. Faz mal não.

Esperar a vida toda pra sair do estádio. Ainda assim, massa comprimida. A ‘numerada’ é pra poucos. A rampa de saída, pra todos. Neguinho segurava a bandeira no ombro.Enorme. No mastro de bambu, a cachaça já secara. Com a mão livre, batucava levemente nos traseiros de quem vinha à frente. A Jurema perdeu o radinho de pilha. Roubaram o guarda-chuva da Neuza.

Na rua lateral , o ônibus da torcida Ponte Preta. Se puseram a cantar:”Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni”. O filho falou, vamos correr mãe? Melhor não, ela respondeu. “Então vou tirar a camisa”. “Não demonstre medo, que é pior, filho”. Uma pedra acertou o braço, outra maior nas costas. Lapidação bem agora? Uma viatura chegando. Ufa!
O resto foi o que vocês ouviram no rádio.

11.08.2010