sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O tempo

O tempo é como a linha de um carretel. Desenrola pra pregar uma amizade. Desenrola pra costurar uma relação esgarçada. Desenrola pra beleza do nascer do sol. Pra beleza de uma flor. Costura uma dor. Tece o jardim da existência. Quando vê, sobra amizade, amor, família. Tudo o mais é perfumaria.

sábado, 29 de novembro de 2014

Uma carta imaginária para a vó Tutinha

Querida vó Tutinha, A senhora me pediu para escrever amiúde. Não deu. Andei atarantada por aí. As voltas que o mundo dá. Sabe o ferro que era de ferro, que a gente punha um prego atravessado para ele não abrir? Agora é a vapor. Muito leve e ainda assim se chama ferro. Estira bem sem ser pesado. Fogão a lenha, só se for luxo. Usamos a gás. Perigoso é. De tempos em tempos explode algum por descuido do dono e vai tudo pelos ares. Lembra que a gente esfriava mamadeira das crianças no rego d'água? Geladeiras são comuns. Com degelo automático. Nem dá trabalho pra descongelar. E as panelas então? Já vem tudo areada, de inox e até de vidro. Tanto progresso que só vendo. As moças, vó, não usam mais casar. Só usam. E ninguém acha sem-vergonhice não. Aquilo que a senhora achava um pecado cabeludo, hoje é uma atividade normal. Assim como respirar, andar ou beber água. Engravidar? Tem perigo não. Tem remédio pra tudo. E até uma tal de pílula do dia seguinte caso dê azar. Ruim é a tal da AIDS. Muita gente que pegou. Pega no contato sexual e em transfusão de sangue também. Lembra que o pai tinha sífilis e que eu quase nasci cega? Que meu olho por dois anos era só pus? Não fosse Santa Luzia... Pois é, essa doença de quatro letras é muito pior e ainda não tem cura. Por ora a indústria de remédios é que vai lucrando. A grande devoção é a uma entidade chamada Mercado. É comum a gente ouvir: "o mercado está nervoso", "o mercado tá em crise", "o mercado oscilou" e por aí vai. Bar é oratório. Fiéis perfilam-se diante de prateleiras cheias, iluminadas com todas os matizes de cores. Lá permanecem até o amanhecer, afogando as mágoas. É comum ver gente falando sozinha nas ruas, nos pontos, nos ônibus e dentro dos carros, que a senhora chamava de "máquinas". Tão loucos não, vó. É um aparelhinho chamado celular que inventaram para a comunicação com as pessoas. Funciona como um brinco, já que ninguém o tira da orelha. É sucesso absoluto e ninguém mais escreve cartas. A cidade de São Paulo é um colosso. Somos pra mais onze milhões de habitantes e a sexta maior aglomeração urbana do mundo. Cada arranha céu mais bonito do que o outro. A gente pobre espirra para os arrabaldes, se amontoando como dá. Tanta favela! Chamam “comunidade” e vivem se incendiando por aqui. Especulação imobiliária é fogo. A senhora reclamava dos botequins que só serviam para desencaminhar os moços. Outro dia, num boteco, ouvi perguntarem para um freguês porque ele batia na mulher. "É para ela deixar de ser feia", ele respondeu. Tem jeito, vó? Cidade grande tem de tudo. Gente boa e gente ruim. Mas, a maldade tá solta. Dizem que a violência cresce porque as pessoas não se conhecem, não se gostam e não se tocam. Solidão na multidão. Um ósculo e um amplexo, da neta que muito a estima. https://soundcloud.com/miltonjung/conte-sua-historia-com-suely-schraner http://miltonjung.com.br/2014/11/29/conte-sua-historia-de-sp-uma-carta-imaginaria-para-a-vo-tutinha/

sábado, 15 de novembro de 2014

Territórios da memória


Raios de sol riscam o chão. O espaço era Gaia. Condutores de lembranças. 
Territórios da memória.

foto:suely schraner

No jardim de miosótis, semear a nossa história. 

A tristeza foi embora e a saudade vem agora. 
foto:suely schraner

As flores que a mãe plantava, emoldura a nossa hora. Embaralha o pensamento, no vaso que brota e chora. Desfolhando toda a vida , substrato da memória. 

Nos sonhos reativados, um Pé-de-Juá se eleva. Sobre a terra calcinada, casal se deita e releva. Na dura vida que leva, esperança se revela. Pensa na vida latente, barriga que ora cintila. Do lado, poça obscura e água salobra quente. 

Já nos sonhos à galope, o cavalo mais amigo. Corre, leva ao cajueiro a jovem que vai ligeira. Alcança qualquer parada. Avança leve e fagueira. 

Uma linda Pitangueira ilustra o sonho infantil. No quintal daquela avó, a guirlanda de pitangas, enfeita e inspira a aprendiz.
foto:suely schraner


Um vento bate e balança, Guapuruvu que era “a Gê". A copa, em forma de cálice, preenche todo saber. 

A mangueira mais querida guarda histórias como a brisa. Colinas encantadoras, amores primaveris. 

Substrato, vida breve, resiliência e aprender. Foi naquele bambuzal um caso de enternecer. Leveza, amores e cores. Entremeios de gorjeios. Cantiga de passarinho rivaliza com carinho. Da disputa entre os dois, ganhou o que branco era. E neguinho se conforma dizendo: que nada, que oras bolas! Onde anu-branco repousa, anu-preto não tem hora. Acabou-se o que era doce. Daqui eu já vou me embora.
Quanto custa um bem querer, Anu preto do sertão. Soubesse a dor da saudade não cantava assim mais não.

Por fim, um sonho conjunto. Jardim a realizar. Mão na massa todos juntos. Um mundo novo criar.
foto:suely schraner

Nota:
Miosótis: 
Planta rasteira que tem origem na Rússia,
A explicação do nome "não-me-esqueças" da flor pode ser explicada por algumas lendas. Uma delas diz que num belo dia de Primavera, dois jovens apaixonados se encontravam à margem de um rio. Nas águas turbulentas, a jovem avistou um ramo de miosótis flutuando e ficou maravilhada pela beleza da flor. O seu amado, mergulhou então para apanhar as flores e oferecê-las à sua namorada. No entanto, quando tentou voltar para a margem, foi arrastado pela forte correnteza. Esta lenda conta que pouco antes de desaparecer ele gritou para a sua amada: "Não me esqueça, me ame para sempre!". A partir desse dia a flor miosótis passou a crescer nas margens dos rios, para que mais ninguém tivesse que morrer por sua causa.
Uma outra lenda conta que Adão, quando estava no Jardim do Éden dando nome às plantas, esqueceu-se de uma planta muito pequenina, que interpelou Adão para saber qual seria o seu nome. Adão então disse que seria “Não-me-esqueças”, para que ele nunca mais a esquecesse.
A flor Miosótis (Não-me-esqueças) é conhecida também em outras línguas como: “Forget-me-not” (Inglês), “Vergissmeinnicht” (Alemão), “Nomeolvides” (Espanhol), “Nontiscordardimé” (Italiano).
A flor Miosótis foi utilizada como emblema secreto da Maçonaria, para que os maçons pudessem se identificar durante as perseguições às lojas maçônicas na Alemanha.
É uma flor que simboliza a caridade e a fraternidade.
Dizem que as lágrimas derramadas nas pétalas pela Virgem Maria deram a cor azul à flor. Existem Miosótis também nas cores branca e rosada. São plantas rasteiras que se dão bem em baixas temperaturas e surgem na primavera. Fonte: http://www.significados.com.br/flor-miosotis/
Guapuruvu: árvore de grande beleza ornamental cujo tronco é utilizado para fazer canoas e as sementes para bijuterias.
Juá: também conhecida como juazeiro. Fruto amarelo. Tem propriedades medicinais. Típica da caatinga nordestina.  
  

sábado, 11 de outubro de 2014

Coruja buraqueira

suely schraner

Brincadeiras infantis

suely schraner


Quando eu era menina, brincava de passa anel. Também de contar casos. Queimada nem pensar. Lerda demais. Pular corda não dava. Muitas marcas nas canelas. Subir em muros, árvores, nada disso. Sonsa de tudo. Minha brincadeira mais arrojada era jogar peteca.

Curtia a interação com a natureza e de como a percebíamos. Não me acanhava em construir bichinhos com maxixe, chuchu ou batatas. Fazer “cozinhadinhos” de mentira, em panelinhas de ferro presenteadas pela madrinha.

Bambolê eu experimentei, mas era um aro qualquer.  Aspiração à bailarina, quem sabe... Cintura fina, talvez. 

No carnaval pulava contente, esguichando lança-perfume nos outros. Não era proibido ainda.

Dizem que no Antigo Egito, encontraram bonecas em túmulos de crianças. Eram feitas de madeiras, banhada na argila, com forma de espátula e cabelos de verdade.  As minhas eram de pano. Bruxinhas que a vó Tutinha fazia. Eu costurava seus vestidinhos imitando o figurino das heroínas da revista Grande Hotel. Folhear revistas de adultos me embevecia.

Consta que a fabricação de bonecas com objetivos comerciais teve início na Alemanha e em Paris, por volta do século XV. Eram feitas de terracota, madeira e alabastro (tipo de pedra). Um dia eu ganhei uma boneca de porcelana. No colo da minha avó chacoalhei tanto, que a dita escapou da minha mão e virou mil cacos no chão. Durou só um dia.
Adorava minhas bruxinhas chacoalháveis. Queridas de cores e amores. Esplendores infantis.E brincava divertida nas enchentes que afligiam os adultos do povoado. 

Tão boba, doei meu anelzinho, presente da Dindinha, para a campanha “Doe Ouro para o Bem do Brasil”. Eu, hein?

Menino, brincava de tudo: pega-pega, cabra cega, esconde-esconde, atirar pedras em árvores e até com estilingue, matando os passarinhos. Mocinho e bandido.

Em São Paulo, dentre as proibições prescritas pelo artigo 142 do Regulamento Geral do Trânsito, era proibido a prática de futebol nas vias públicas (Estado de SP, fevereiro de 1954). Já em 1958 o Brasil foi campeão do mundo na modalidade.


E você, do que brincava?

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Leseira

foto by suely schraner


“O crack é leseira. Agora tô só na cola, disse e sentou-se.
Para comprar uma pedra, preciso de dez reais. Já a cola, com dois ou três, eu consigo.
Ela ficava sempre no Centro. Falo que quero ser o homem da sua vida. Qual homem que hoje em dia quer uma mulher pra sempre? Eu vejo tanto homem por aí batendo, barbarizando, cheio de ciúme. Eu não. Se ela quer sair com outro que saia. Nem tenho ciúmes. Vou prometer tudo na quarta-feira, que é o dia da visita lá no cadeião. O que me azara é que ela fala pras amigas que sou seu amigo. Só quero que ela reconheça. Os bacanas amigos dela, até agora não apareceram lá na visita. Nem trazer um pão sequer. Eu não. Eu venho.
Bem sei que qualquer um que está na cadeia, acha que todo mundo que está aqui fora, é bom. Eu já passei por isso. Não tanto tempo quanto ela. 

Pô! Ela já tem três filhos, tá ligado, cara? Um sumiu. Ela nem sabe quem roubou. Outros dois, tão com gente da igreja .Falo pra ela: vão crescer e acabar na rua como nós. Quero levá-la pro caminho de Deus. Se é difícil pros que estão fazendo a coisa certa, pra nós então, é mais difícil ainda.
E quero ter um filho com ela. “Aqueles”, nem ela sabe de quem são. Quantos anos ela tem? Dezenove. Eu tenho vinte. Conhecer melhor? Não, cara. Conheço ela muito bem. Desde criança.

Só uma coisa eu vou prometer e sei que não vou cumprir. Ter um pouquinho de ciúme. Isso eu vou sim. Ela bonita demais. Até engordou um pouco, na prisão. Gosto tanto dela!  Adoro mulher de olho verde. Ou será azul?

Quando ela queria sair, nem implicava. Nem com roupa, nem com horário, nem com os caras, nada. E comigo ela não decide, pô! Falo pra ela: Caraio! A visita só tem três horas e você me larga para fumar maconha lá no canto!  Fica rindo com as amigas.

Vou indo. Acha que ela me ama? Vou lá falar com ela. Olho no olho. Bem assim como nóis agora, né tia?

Ferocidade

Caça
feroz
na 
cidade
que
mata



Preferência


ser
preferido
que 
indispensável
é
melhor


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O prédio



foto by suely schraner




A tarde trazia consigo melancolia de pôr-do-sol. Andara o dia o dia todo. As têmperas latejando. Britadeira batucando do outro lado da rua. Demolira planos. Rompera ilusões. Nadara em águas revoltas. Nebulosas da memória. Mistura de vinho com Rivotril, as suas sinapses poéticas.

Ávidos edifícios o espreitam.
Pele de vidro e frita aves. Caleidoscópio lancinante. Lugarzinho inabitável. Áreas descomunais. A planta letal. A vida por um fio é que dá força para amar. Certificar o nada.
O desespero a um passo da felicidade.

Deu por si e estava diante dela.
“Não esperava te encontrar aqui”. “Ah, bem sabe que minha vida é nos cascos”. “Sei, nos sapatos e na cama”. “Andou chorando?”
Abaixa os olhos. “Cisco”.
Sinto que gostaria de me beijar. “Diga-me, será que desta vez conseguiremos? “O não nós já temos". "Agora, é tentar o sim”.
Passam despercebidos.

No andar, começara a sentir-se mal. “Você está doente? “Cisco”. Tá brincando! “Sinta o cheiro”. De morte? “Não amole, é cheiro de felicidade”.

Embolados. “Sabia que o corpo fala? Às vezes faz bem ficar doente”. “É a vida chamando a atenção da gente”. Tem o dinheiro?
“Daqui dez dias”. “Dez dias não é possível. Até lá...”

Saem.

O sol se escondera detrás do prédio.
Espelhado e colorido.
Caleidoscópio onírico. Na planta ou próprio para morar. A vida alucinada. 
Certificação AQUA- alta qualidade ambiental. Áreas comuns generosas.
A felicidade a um passo do desespero.





segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Primavere-se

foto tirada no SESC Interlagos 

A iritrina é uma flor típica de São Paulo.

Alimentar-se não é só comer

Alimentar-se não é só comer!
O processo do envelhecimento varia de pessoa para pessoa. Estabelecer rotinas saudáveis no dia-a-dia desde criança gera benefícios na idade avançada. Fugir do sedentarismo e controlar a alimentação é essencial para uma boa qualidade de vida. O processo desde a compra de alimentos frescos, o correto armazenamento e higienização, até o sentar-se à mesa com calma e na companhia de pessoas queridas também são importantes para a saúde.

Para a população em geral, ter uma alimentação equilibrada e comer de três em três horas é essencial uma vez que essa atitude reduz os intervalos entre uma refeição e outra e, consequentemente, promove maior saciedade.Faça pelo menos três refeições (café da manhã, almoço e jantar) e dois lanches saudáveis por dia. No almoço e no jantar é bom ficar com o tradicional arroz e feijão, com proteínas magras (carne sem gordura, frango, peixe) e muito legume e verdura. Fazer um prato bem colorido e de sobremesa preferir uma fruta para enriquecer as vitaminas da sua alimentação. Ingerir alimentos ricos em cálcio como laticínios (leite, queijo, iogurte), é bom para fortalecer os ossos e outras funções no organismo. Evitar alimentos gordurosos e com muito açúcar, como as frituras e doces, para evitar o aumento de peso e outras doenças como diabetes e colesterol alto.

É de grande importância o consumo de líquidos durante toda a vida, porém, com a idade, essa ingestão deve ser priorizada para evitar a desidratação. Os alimentos também contribuem para a reposição de líquidos, principalmente as frutas, mas ainda assim a ingestão de água fresca e pura é melhor. Então, é importante aumentar a ingestão de água (no mínimo oito copos ao dia, para quem não tem restrição de líquidos).

São comuns, entre os mais velhos, queixas relacionadas ao mau funcionamento do intestino, dos rins, colesterol alto, diabetes, pressão alta e problemas no coração. Os alimentos com alto teor de antioxidantes são ótima opção, pois melhoram a preservação dos tecidos e vasos sanguíneos, podendo prevenir doenças e aumentar a imunidade, além de possibilitar um retardo no processo de envelhecimento. A maior quantidade de antioxidantes pode ser encontrada em alimentos como: cenoura, beterraba, abóbora, brócolis,espinafre, batata doce, manga, mamão, damasco e as frutas cítricas (limão, laranja, acerola).

Tente realizar as refeições nos mesmos horários, na companhia de pessoas queridas e evite conversas desagradáveis que possam gerar algum tipo de desconforto. Temas sobre qualquer tipo de descontentamento em relação ao ambiente de trabalho, discussões e problemas familiares podem contribuir para um mal estar e, consequentemente, promover dores abdominais ou generalizadas. Lembre-se que a hora da refeição também é um momento de cuidado e de promoção de saúde e que o seu corpo recebe tanto a comida quanto as emoções que você sente.    

Caso você não faça as refeições em casa, busque por ambientes tranquilos, onde o transitar das pessoas não comprometa o espaço e a tranquilidade. Ambientes fechados, com pouca ventilação e que o acesso a mesas e corredores seja difícil, geralmente podem gerar transtornos e irritabilidade. Faça da hora da refeição um momento de relaxamento e descontração. Afinal, as escolhas alimentares são individuais e o que é bom para um pode não ser adequado para o outro. Por isso é importante em caso de dúvidas, restrição ou falta de apetite, buscar orientações profissionais para saber se a alimentação seguida está adequada.

  
Sabrina Caldas (Nutricionista, Mestranda em Ciências do Envelhecimento).
Eliane Fátima O. da Silva (Psicóloga, Mestre em Ciências do Envelhecimento).

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Prédio I

foto by Suely Schraner
Centro de São Paulo-  do Vale do Anhangabaú
Pele de vidro e frita aves.
Caleidoscópio lancinante.
Lugarzinho inabitável.
Áreas descomunais.
A planta letal.
Sentimento de que a vida é que dá força para amar.
Desespero a um passo da felicidade.


Da oficina criativa com Reynaldo Bessa na Biblioteca Malba Tahan
Tema: Descrição de um prédio do ponto de vista de um pai que acabou de perder um filho

sábado, 13 de setembro de 2014

Porque hoje é sábado


E il naufragar m’è dolce in questo mare (Leopardi)


Magmas. Placas tectónicas. Ensinamento inefável
Emergem, concretos em nossas mentes.
Como a expansão dos fundos oceânicos
Mar e moto.


Um dia no parque



A vida é movimento
Protagoniza o sujeito
De bicicleta ou patins
Valendo qualquer trejeito
Na sombra ou no sol quente
Vai tudo tomando jeito



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Xilogravura



Foi no SESC interlagos
Todos na xilogravura
Oficina e mais historias
De vida e da criatura
Descobrindo a cada instante
Que todos têm aventura

Dona Cida nos contou
Os casos lá do nordeste
Foi tudo tão divertido
Naquele cantinho agreste
Na arte em gravar madeira
Com alegria inconteste

Mas nem só isso é o que tem
Tem também satisfação
Do fato de estarmos juntos
Na maior concentração
Redescobrindo talentos
Entalhando emoção

Na oficina da Nireuda
A arte em gravar madeira
Harmonizando a beleza
Atividade altaneira
Sofisticação e arte
De forma alvissareira

E na hora da impressão
Deu gosto o resultado
Cada quadro assim tão lindo
Superando o esperado
E que era tão singelo
Revelou-se inusitado



São Paulo tem muita história
De uma gente bem legal
Daí que o SESC ajunta
Combinação sem igual
Ativa nossa memória

Libera o sensorial


Oficina ministrada por Nireuda Longobardi

terça-feira, 22 de julho de 2014

Memórias gustativas








“Dai senhor, o mais fino paladar. A quem tem por missão alimentar” Carlos Drummond de Andrade

Da tese de mestrado da Eliane Fátima Oliveira da Silva surgiu a ideia da oficina “memórias gustativas”. O SESC Interlagos promoveu os encontros semanais, mediados por Jusiléia Rocha de Oliveira.

Privilégio participar deste grupo.
Neles compartilhamos nossa história individual. Os aromas da infância e juventude, resgatados em lembranças remotas mais que atuais. Momentos realimentados com amor e sabor. Expressão de arte em mágicos momentos gastronômicos.

Cada história, uma janela aberta para o mundo. Cada narrativa uma emoção e nova releitura. Encantamento em estado bruto. Aguçar o paladar, olfato, tato, audição e por fim, a visão dos pratos preparados.
Na hora da degustação, muito riso. Somos um grupo feliz.

Finalmente fazer sabores, inspirados nas falas e sentimentos.

A Lourdes que cuidou de filhos e divide os dias com netos, preparou a torta da Bila.
A Cida que era paparicada pelos pais e dedicou-se aos filhos e ao marido, fez  o brigadeiro de colher.


A Antonia,  que morou no Paraná e agora namora o Walter, que conheceu no SESC, preparou o pão de ló.

O Walter que gosta de namorar e dançar e que antes, jogava bola, preparou o feijão com legumes.
Eu que me lembrei que não gostava do quiabo por causa da baba, preparei a polenta com quiabo que me remeteu à casa da minha avó Tutinha.

E como uma lembrança puxa outra, novas receitas foram surgindo. Experimentamos o pé de moleque e o pão caseiro.Seguimos trocando saberes e sabores.
Nada será como antes.
facebook .com/suely.schraner

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Pirotecnia



foto: suely schraner


De norte a sul de leste a oeste, o Brasil é um fogaréu só.

Vai ter copa, não vai ter copa. Só a tocha? Liberdade? Estátuas. Como está fica.

Morreu inocente? Fogo nele. Violência policial? Fogo! Faltou água. Gasolina e fósforo aceso. Morreu bandido? Fogaréu.

Tudo explode. O clima esquenta. A raiva cresce e a sensatez viaja no espaço sideral.

Há tempos as pessoas estão malhando o busão. Muito antes e depois do sábado de aleluia. A cada bairro, a cada esquina um Nero sem Roma e sem história.

Incendeia, incendeia. Nossas estações incandescentes. Inferno de Dante contemporâneo. Pessoas interrompendo a pressa. Cobradores assustados.  A coisa se espalhando, labaredas se arrastando.
Se dá, a gente vai que nem bicho e pagando caro. Acreditar.
Versão moderna do navio negreiro.

Se não dá, desce. Procissão de trabalhadores, suados, cansados, desarmados. 

Facções esquentando ainda mais o clima infernal. Repiques hidrófobos. Comentários homicidas. Bombeiros às avessas. Balas perdidas achando inocentes. 

Fogo e sebo nas canelas.

Procissão humana rumo ao trabalho, à escola, ao doutor. Sem choro nem vela.  A indignação sem glossário nem bom tom. Chispa, chispa.  

Novos destrambelhados. Em jogo fatias do bolo que vale cerca de 6 bilhões/ano. A força da grana que ergue e destrói coisas nem tão belas.


21.05.2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O quiabo



Por: Suely Aparecida Schraner

Era uma casinha branca com portas e janelas azuis. Tinha um pequeno jardim na frente, adornado com dálias, miosótis e lírios.  Ali morava a avó e sua netinha.  A casa situava-se na Vila Operária, em Goiânia, Goiás.  A sala era simples. Tinha duas janelas. Sempre abertas durante o dia. Havia mais quatro cadeiras de madeira e um oratório.

Ao lado, o quarto com duas camas de solteiro com colchões de palha e outro oratório. A avó, devota de todos os santos, da virgem Maria e do pai eterno, rezava fervorosamente todos os dias.
  
Na cozinha, tinha dois armários de madeira escura e sem portas. As prateleiras eram forradas com papel cor de rosa. Este papel era trocado toda semana. A netinha ajudava a recortar. Tinha flores vazadas e às vezes, alguns furos feitos delicadamente com a tesoura, o que dava impressão de renda.  As panelas ficavam enfileiradas em um jirau. De tão areadas a gente nem precisava de espelho. O chão da casa era de terra batida. Aspergia-se um pouco de água antes de varrer. Vinha aquele cheiro bom de terra molhada em dia de chuva. O fogão era à lenha, como em quase todas as casas.

A netinha ajudava a buscar a lenha e catar gravetos.
A cozinha típica goiana assimilou muito da culinária mineira, por causa da influência dos tropeiros.  Quando a neta acordava, o fogo já ia alto soltando faíscas em minúsculas estrelas. A casa da avó, o seu céu de anil.
O café escoava do coador de flanela, exalando a festa do amanhecer. O leite fervia criando natas grossas, que de tarde, viravam manteiga.

Na hora do almoço a avó matava uma galinha das que viviam soltas no quintal. Depenava, sapecava no fogo, lavava com sabão de pedra. Raspava todo o excesso da pele e temperava. Alho, sal, manjericão, alecrim, açafrão e cebola. Tudo da horta caseira.  Depois, ela preparava uma polenta.

O quintal era cercado por arame sem farpas.  Na cerca, crescia chuchu e quiabo. A avó pedia para a neta ir colher os quiabos mais verdinhos e tenros.  Ela colhia porque era obediente e a avó mandava. O quiabo lhe dava engulho. Antes, a madrinha lhe contara que o quiabo nascia da baba dos bobos.  Eles babavam, a baba caía no chão e pronto: nascia o pé de quiabo. Naqueles rincões do Brasil Central, tinha muito bobo que babava.

Nesse quintal, o forno à lenha varrido, esperava os bolos, biscoitos, petas e pão doce que a avó fazia para vender.
Na casa da avó a infância e a vida passavam com muita leveza.  A pobreza era rica de cheiros, cores, amores e brilho nos olhos.

Agora, sensações emanam transitando em ventos brandos da memória enevoada.

Numa evocação afetiva, a neta cozinha e come quiabo com frango e polenta. O quiabo frito, não tem baba.
08.10.2014

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Poesia é o futuro













Poesia é o futuro
Por mundo mais afinado
Rimando e contando caso
Fica tudo animado
Pra vida ser bem mais leve
E não ficar amuado

II
A leitura é uma viagem
Apura-se o ouvido
Aprende-se o passado
Lendo, se torna sabido
Semeia-se o futuro
E a gente fica atrevido

III
Cleusa Santo é cordelista
Escalou muito degrau
Conta e ensina cordel
Eleva qualquer sarau
Valorizando o presente
Descartando qualquer mau

IV
Juntos no SESC Interlagos
Futuro já é agora
Abaixo qualquer problema
Tristeza que vai embora
O tempo passa depressa
E a saudade é senhora

V
Vou ficando por aqui
Aplaudindo a freguesia
Construindo meu futuro
E tecendo a poesia
E de todo coração
Agradeço a cortesia

domingo, 13 de abril de 2014

Sem noção


foto by suely schraner

I
Uma avó especial
Para mim tudo fazia
Carinho mais cafuné
Que a tudo me aprazia
Cedo no fogão de lenha
Preparava ambrosia
II
Era um doce bem gostoso
Que a gente saboreava
Fazia um café ralinho
E bolo também me dava
De noite um chocolatinho
Que doce sonho eu sonhava
III
Amigas inseparáveis
Avó que eu tanto adorava
Pra lá, pra cá, sempre juntas
Cantava e também rezava
Na procissão, de anjinho
Ela assim me enfeitava
IV
Avó de forno a lenha
Tinha ainda o seu formão
Fazia as hóstias do padre
Com a maior dedicação
Para mim tocava as sobras
Bem antes da comunhão
V
O meu sabor da infância
Assim tão imprevisível
A avozinha tão querida
Pessoa inesquecível
Transformava os meus dias
De maneira indizível
VI
Costurava umas bruxinhas
Bonecas que eu adorava
Comprou-me as panelinhas
Que a priminha cobiçava
Um dia, lá no quintal
Eu a ela “cozinhava”
VII
Peguei cocô de galinha
Misturado com um torrão
Fiz alguns biscoitos lindos
Ofertei de antemão
Para a priminha invejosa
Que comeu na ilusão



VIII
Ao ver aquilo de longe
A “vó” correu na aflição
Menina não faz mais isso
Eu sofro do coração
Agora vai pro castigo
Que coisa mais sem noção.
foto suely schraner
Oficina de cordel - Cleusa Santo