domingo, 20 de fevereiro de 2011

Tudo é carnaval



foto by peter schraner
Choveu na véspera. As plantas daquele jardim brilhavam como o olhar das meninas.

O trabalho envolvia buscar as pessoas que publicaram suas histórias e relacioná-las com conceitos de hospitalidade, turismo e responsabilidade social.

Eram alunas do curso de Bacharelado em Hotelaria, do Centro Universitário SENAC - Campus Santo Amaro. Estavam envolvidas em um projeto sobre o Carnaval.  Então, recorreram ao site "São Paulo Minha Cidade", promovido pela São Paulo Turismo.

Convite feito e aceito. Lá estava eu na manhã radiante contando o que havia por trás da minha história "Tudo é Carnaval", publicada neste sítio.

Meu imaginário povoou-se de lembranças soterradas no batuque daqueles idos. Bem no estilo do, “não põe corda no meu bloco, nem vem com seu carro forte, nem dá ordem ao pessoal”. Desandei a falar.

Lembranças em marcha. Fui pra “Maracangalha”.

Em 1957, o governador de São Paulo, Jânio Quadros, proibia o rock’n’roll em bailes, alegando afronta à moral e aos bons costumes. Na mesma época, crianças empunhavam frascos de lança-perfume em inocentes cortejos. Era um esguicho frio e perfumado, fabricado pela empresa Rodo. Evaporava-se rapidamente. Foi banido em 1961, acusado de ter se tornado uma espécie de droga, que era cheirada, em lugar de ser esguichada nas pessoas. Confete, serpentina e lança-perfume eram elementos carnavalescos e aliavam a “loucura” da folia típica do entrudo, à sofisticação das brincadeiras ao estilo francês.

Na São Paulo dos anos 60, as marchinhas sucediam-se ao embalo de Cuba Libre: 50 ml de rum com 100 ml de Coca-Cola, em copo com gelo e uma fatia de limão. Ou, Hi-Fi: vodka e Crush (a base de laranja). De comida? Amendoim e pipoca. Mas se você pensa que cachaça é água, cachaça não é água não.

Enfim as águas rolaram.

Hoje, os holofotes estão voltados às grandes escolas de samba e trios elétricos que movimentam o turismo. Porém, desde que o carnaval é carnaval, muita coisa rola onde menos se imagina. Aqui mesmo na região sul, temos o Bloco Reciclar a garantir bagunça barata, sustentável e fora das cordas.

Pela saudade que me invade, eu quero paz.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Desbravar São Paulo, o início

- Ih, minha filha. Ora se eu me lembro. No dia que vim para cá, era todo mundo vomitando. Aquilo chacoalhava que só vendo.

- Minha vinda foi triste. Só um mês de viuvez. A mais nova recém-nascida. Fui para casa de parentes. Tudo muito custoso e sofrido.

- Eu vim de Maria Fumaça. Com os meninos mais novos. Os grandes, já estavam aqui trabalhando. Foi preciso dois táxis. Saímos de uma casa de doze cômodos para uma de quatro.Quantos filhos? Vinte e dois.

- E eu? Vim na carroceria do caminhão. Treze dias de viagem. Estrada? Tinha não. Só terra e ribanceira. Vi caminhão que vinha atrás, despencar logo depois que passamos na pinguela.

- Já eu, mudei para uma casa em construção. Nem porta nem janela. Meu marido ia fazendo aos poucos. Filhos? Só uma mais a outra, na barriga que eu peguei, logo ao chegar.

- Chegamos direto na Estação da Luz. Fomos caminhando, da Luz até a Praça da Árvore. Sem costume na cidade, não agüentamos não. Só mais um ano, depois voltamos. Aqui estamos e aqui ficamos.

- Eu vim encaixotado. O agente foi lá em Minas. Falei prá mamãe: “vou trabalhar em São Paulo”. Onde? “Na Light”. Fiquei morando no alojamento. Documento tinha não. Nem registro de nascimento. Nem Light. Só na construção e no galpão.

- Eu lá em Pernambuco. O homem, mais de 11 meses sem me mandar uma linha. Escrevia pros outros, ora. Aí, me danei. Vim para São Paulo. A menina só urinava que fralda descartável não tinha não. Vergonha daquele fedor no ônibus.

- Cheguei num dia muito frio. Saí de Minas com um sol vermelhão e um calor de rachar. Roupa de frio? Tinha não. Aqui fui trabalhar na britadeira. Depois na construção civil.

-Morei na Cidade Ademar. Depois mudei pro Jardim São Luiz. Saudades dos amigos? Senti não.

- Vim de Alagoas. Sozinha com a menina. Marido? Larguei pra lá. Emprego já arrumado. Que fama de trabalhadeira eu tinha. Onde? Em casa de família...

-Aqui era garoa direto. Tava acostumada não. Fui ficar na casa da minha tia. Também arranjei serviço em casa de família. Depois fui trabalhar numa firma, mas não deu certo.

- Morei em Ilhéus. Uma beleza. Vim sozinha pra cá. Chorei muito. Fazer o quê? Meu marido já estava aqui. Lá, em ilhéus, a praia pertinho. A feira, os barcos, o céu azul, tudo encostado. Fiquei apaixonada. Aqui? Tudo muito diferente. Muito difícil.

- Vim pra ser freira. Sozinha com 10 anos de idade. Mala e bilhete mais o dinheiro pro táxi. Passagem foi grátis no avião da FAB. Destino: Avenida Nazaré, Convento Sagrada Família. De onde? Cuiabá, Mato Grosso.

- Chegamos apenas com a roupa do corpo. O pai foi trabalhar com a picareta. Tirando paralelepípedos para dar lugar pro asfalto. Onde ficamos? Num cômodo de madeira. Tudo junto e misturado. Quantos? Só dez.


No Dia Em Que Eu Vim-me Embora (Caetano Veloso)

No dia em que eu vim-me embora /Minha mãe chorava em ai /
Minha irmã chorava em ui /E eu nem olhava pra trás /
No dia que eu vim-me embora /Não teve nada de mais
Mala de couro forrada com pano forte brim cáqui/
Minha vó já quase morta/Minha mãe até a porta
Minha irmã até a rua /E até o porto meu pai
O qual não disse palavra durante todo o caminho
E quando eu me vi sozinho /Vi que não entendia nada
Nem de pro que eu ia indo /Nem dos sonhos que eu sonhava
Senti apenas que a mala de couro que eu carregava
Embora estando forrada /Fedia, cheirava mal
Afora isto ia indo, atravessando, seguindo
Nem chorando nem sorrindo /Sozinho pra Capital
Nem chorando nem sorrindo /Sozinho pra Capital
Sozinho pra Capital ...

Capitano d’industria



Reza a lenda que serviu a Mussolini. Era da marinha e viu o mar tingir-se de vermelho na guerra.

Só emoção. Coração na boca. Para o bem e para o mal. Ou oito ou oitenta. Gostava demais. Sentia raiva demais.

Se ela legislava a favor de um empregado, ele retrucava: Quem paga o seu salário, sou eu ou é ele? Para logo em seguida, concordar.

Até para pedir um copo d’água, um palavrão, em italiano ou português mesmo. Era de lei.

A maturidade, a experiência e afeto permeados de confiança. Confio até me provarem o contrário, dizia. Competia consigo próprio.

Sua gargalhada ressoava pelos corredores. Da mesma forma que dava murros no balcão, se algum documento sumia. Um dia, a funcionária nova não encontrava o documento solicitado. E ele: Toda vez que procuro este documento, tá na casa do caralho! A Jurema retrucou baixinho: Não sabia que tinha casa... Já, a funcionária nova, que era crente, nunca mais apareceu, nem pra dar baixa na carteira.

Capaz de surpreender. Ajudou o empregado a construir a casa dos sonhos. Tijolo a tijolo. Dizia que era empréstimo. Nunca aceitou pagamento de volta. Mas numa falta profissional, gritava: Bastião, você é um bosta!


Seu objeto de sonho era construir casas populares para todos os empregados.

Quando soube da viuvez precoce da ex- funcionária, mais que depressa lhe ofereceu o emprego de volta. Estou no sexto mês de gravidez, ela disse. Gosto de gente que trabalha, esteja grávida ou não. Pode vir. E isso, foi a sua salvação, já que nem enxoval, nem berço ela tinha.

Num belo dia, ele comprou uma Mercedes. Orgulhoso a chamou para mostrar a maravilha. "Como o senhor pode andar num carro que custa mais que um apartamento, com tanta gente sem ter onde morar?" E ele: Prefiro ser vaiado numa Mercedes que aplaudido num ônibus.

Inteligente e trabalhador. Um capo de indústria. Tenacidade e dedicação fizeram o pequeno negócio, iniciado numa garagem, se transformar numa referência em matéria de pastifício.

Era o primeiro a chegar e o último a sair. Dizia que o escritório era o cartão de visita. Queria moças bonitas e eficazes. Limpeza era regra absoluta. Um dia, um entregador apoiou a mão suja no portal. Ao ver isso, ele deu um tranco que o coitado se desequilibrou, sob o riso de todos. O batente da porta era todo branco, não podia ter nem uma manchinha...

A massa que fabricava era excelente. A mesma que ia para o mercado, era servida em sua mesa.

No Natal, não economizava. Panetone da Di Cunto, pernil e caixas de macarrão pra todos.

Uma tristeza porém, minava sua resistência.A vida inteira dentro da fábrica, só compensada pela certeza da volta ao lar no fim de cada dia. Lar que deveria desocupar. Perdeu em última instância, o direito de continuar onde vivia há muitos anos.Desapropriação, para aumentar o jardim do palácio do governo.

Desajustes na sociedade e má gestão o forçaram a vender a fábrica. Mais desilusão. A vida se esvaindo num câncer definitivo.
Suas últimas palavras ao morrer: Foda-se

P.S.:

Foda, vem do grego antigo e significa "mina".

FODDERE, significa "escavar" ou "cavoucar".

FODINA, significa algo como "mina pequena, sem
importância, com baixo rendimento extrativista".

Assim, o termo FÓDA virou analogia do ato sexual,
muito provavelmente, devido ao esforço masculino
sobre o corpo feminino, como num trabalho "árduo".

Curiosamente, alguém dizer "VOU FODER A MINA",
significaria, literalmente, que iria escavar no túnel,
em procura de algo precioso...
Fonte: http://www.dicionarioinformal.com.br/





domingo, 2 de janeiro de 2011

Agradecimento

2010 - 2011

Agradeço a quem deixou seus comentários neste espaço. Muito obrigada a quem, ainda que de passagem o visualizou. Foram 917 visualizações até esta data!

Recebam o Ano Novo com muita generosidade e alegria. Feliz tudo para todos! Abraços, Suely

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Alvorada


Vai raiar
Resplandecer, iluminar
Alvorada uma alegria.
Crepúsculo matutino
A desandar qualquer tino.

Era um sair de mansinho
Bater em qualquer cantinho
Valia bumbo e panela,
Bomba e até tarantela
Bate daqui e dali
Acorda aqui e acolá

Vamos indo em procissão
A cada casa, aumenta o povão
A cidade é bem pequena
Falta tudo, menos cena

Lanterna ilumina a rua
Quem não tem, pisa e se suja
Uma cobra, uma coruja
Nesta formicofilia
A festa da alvorada
Naquela periferia

Fim de mundo, fim de ano
Alvorada, festa magma
Sol nascente
E vida pela tangente.



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Seu dia de sorte




Tarde quente. Ar abafado anunciando o temporal de sempre. Mais um verão escaldante. Céu azul celeste. O derradeiro dia de trabalho, enfim, as esperadas férias concentradas. Fim de ano. Desci do ônibus, no ponto final. Andei duas quadras. Ele atravessou a rua e veio na minha direção. De soslaio, notei que usava um chapéu como os de safári, enterrado na cabeça, até os olhos. Prognata. Bermuda larga, vermelha estampada e surrada. Camiseta grande , azul clara. Chinelo tipo havaianas, verde. Nas mãos uma sacola de supermercado, cheia. Foi chegando e perguntando:

- Por favor, você sabe onde fica o supermercado três amigos?
- Estou indo nesta direção. Vamos que eu te mostro.
- Você é corajosa.

- Você está me achando corajosa porque você pediu uma informação e eu respondi?

- É. Sabe que hoje em dia tem muita desgraceira por aí. É pai matando filho, filho matando pai, uns roubando e outros estuprando... Muita de maldade. Na moral, só tô falando, não quero te assustar. Eu mesmo fugi da cadeia, tá me entendendo? Tenho um carro logo ali, quer uma carona?

-Você está me dizendo que fugiu da cadeia....

- É. Do Carandiru. Peguei 27 anos. Sabe como é, cabeça quente, barbarizei. Mas você é corajosa, fala com estranhos, hein? Acha que eu ia ficar lá? Só quem já ficou é que sabe. Faz uma semana que estou de boa. De dia eu durmo, de noite fico andando. Pra não rodar. Bobeou, jacaré vira bolsa. Tomo banho na represa. Comida me dão nas lanchonetes por aqui. Sabe do que mais? Tô cansado de saber onde fica o supermercado três amigos. Você não está com medo?

Agora, chegando quase em frente de casa, pensei: “deve ser mais um louco na cidade tentando me assustar. Fazer confidências, a troco de quê?”

A rua morta. Nem mosquito à vista. Pensei em tocar na vizinha para despistar. Faltou vocação pra “amigo da onça”. Então, tentando aparentar a maior calma, e me fazendo de desentendida:

- É só seguir em frente, o supermercado fica depois da avenida.

- Só mais um favor. (Abrindo a sacola e exibindo o conteúdo.) -Ganhei esses pedaços de pizza e preciso comprar um refrigerante.Tá tão calor. Você tem uns trocados pra me dar?

Até tinha, só que nesta altura não ia abrir a bolsa pra ele, ali no meio da rua.
-Vou ficar devendo, ando só com passes para a condução.

- Não tem não? Quem mora em casa tá pior do que quem mora na rua... Quer saber?


Enfiou a mão no bolso da bermuda e tirou um “bolo de notas” de R$10,00 e R$ 50,00, vi apavorada que a história da fuga era pra valer.

- Tó, pode pegar, presente pra você, ele insistia.

-Não muito obrigada, não precisa. Ao que retrucou aos gritos:
- O quê, vai recusar? Você falou comigo na boa. Foi simpática... Não posso te fazer um presente não? Pega aí!
- Claro que pode, e eu agradeço de coração, mas você está na rua e espero que aproveite bem seus dias de liberdade.
-Você mora aí?
Fui abrindo o portão de entrada da casa, coração aos pulos. Ele seguiu andando devagar, olhando pra trás. Mostrou o cabo do revolver enfiado sob a camiseta, no cós da bermuda e gritou.
- Tchau! Feliz Ano Novo! Olha, joga na loteria que hoje é seu dia de sorte!

domingo, 21 de novembro de 2010

Guarapiranga

Manhã de domingo. Sol incandescente. Centenas de pessoas atenderam ao apelo tire sua bunda do sofá. Vida é movimento?

Menina magrinha, negra como as asas da graúna, desdentada. Copo plástico na mão, até a borda de caninha. Arriou o calção azul. É de bunda que eles estão falando? Então aqui está a minha, sorria ela para os irmãos de rua. Outro, dormia, encolhido e debaixo de pequeno cajueiro em flor. Virada nada cultural e ainda poética.

Público diverso. Biodiversidade.

Cachorrinho magrela, cor de burro quando foge (corro do burro quando ele foge- diz o professor). Costelinhas à mostra. Nenhum petisco no chão. Língua de fora. Nada de água. Cheira daqui, cheira dali. Um, joga a garrafa d’água vazia. Outro joga pedra, assustando-o ainda mais. Pernas pra que te quero. Atleta off line em desabalada cultural. O viver perigosamente. Sobre um viver náutico. A vidinha, um esporte radical. Moça da inscrição, deixa meio copo de água, no chão. Tampado até a metade. Não deu desta vez. Derrubou tudo. Segue correndo. Velocidade máxima. Língua de fora, sem medalhas nem migalhas. Campeão da vida pelo avesso.

No Bungee Jump, corajosos se borrando e se esgoelando numa descida eletrizante.

No ar, helicóptero verde despeja valorosos cidadãos nas águas plácidas da Guarapiranga. Primeiro Air Show Festival no Brasil. O Swoop (salto de paraquedas a partir de um helicóptero). O paraquedista se aproxima do solo, a cerca de 100 km/h. Tocar os pés na água, empertigar-se no alvo. Equilibrar-se. O homem é um ser vertical? Atletas de Swoop, Wakeboard, Canoa Havaiana, Stand Up Paddle. Heli Coaster (preso a um motor o participante é suspenso a 40m de altura e faz manobras radicais), Simulador de Asa Delta, os Jogos Ecológicos da Cantareira mais a Virada no Gelo. Muita ação na observação, sem perder a esportiva. Nossa! Quanta novidade! É cada uma, que parece duas.

Quem entende tanta coisa?