sábado, 21 de maio de 2016

Malus domestica (maçã)

Suely Schraner

           
 Malus domestica (maçã)

Não pertenço a ninguém
Magia mais sedução
Mistério e folhetim
Zero relatividade
Inércia e transgressão
Fruto mais que proibido
Oferta, Deusa do Amor
Fêmea, ovário e natureza
O pecado original
Doce, doce, doce
Tentação, aventura, temor.
Sob a sombra de uma árvore
Fenda-vulva em tronco rijo
Origem de todo mundo
Talho e racha. A partida.
Perseguida.
Céu fechado em ventania
No frio , outono escancara
Na chuva que se anuncia
Todo o mito que carrego
Sete pragas em copas d’árvore
Nesses dias aziagos. Feminino.
Prazeres inesgotáveis. O eixo do universo.


domingo, 15 de maio de 2016

A praça





A solidão das pedras repousa nos ases em mãos carcomidas. Vinte um, buraco ou burro em pé. 
A tarde fria embala o entardecer.

O lixo reveste o piso das britas incompreendidas, pisoteadas, escangalhadas. 
Pedaços de vida no chão. 

Nesse mar de lixo,  centenas de bitucas retorcidas emergem instigando a imaginação.
Quantos lábios afagaram?  Quanta ansiedade serenaram?

Na mesa do carteado, entre rugas e cãs prateadas, dois-de-paus conversam com valetes esnobando o rei de copas.

O vento canta no alto das árvores e os escapamentos cumprem suas pressas tóxicas.

Acontecemos no amarelo outonal do dia que se encerra.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Saudações


Saudações 

Do beijo de Escariodes.  
Da paz do Senhor das guerras. 
Dos cristãos dando-se as mãos, manipulados ou não. 
Do sol de outono a clarear as ideias de jerico. 
Das maritacas arrulhando nos telhados irados pelas lágrimas da chuva. 
Das cores das folhas que cantam sob os pés do mendigo. 
Do papelão que cobre e abraça o corpo enrodilhado como o feto abortado num dia de festa natalina. 
Das frestas que abrem  dos neurônios a boiar em rios de etanol.
Da passividade marginal de um apalpado na blitz policial.
Dos mais aptos que sobreviverão na hecatombe natural.
Dos caçadores de migalhas que garimpam ouro em merda.
Dos que brincam de cabo-de-guerra nas quebradas da cidade, se estalam e requebram nas voltas que o mundo dá.
Dos que encontram as vitórias nas derrotas, das ideias vãs em porões-latrina.





sexta-feira, 15 de abril de 2016

De gole em gole



De gole em gole

Véspera de um natal do século XX.
Porque todos viajaram e ela tinha trabalho, restou em casa com seus hormônios anárquicos e os 15 quinze anos que portava alegremente.

A casa ficava nos fundos do boteco do pai. Boca de pinga, diziam.
Naquele dia, ela trabalhara na secretaria de um hospital público.  Largou as seis. Enfiou seu cartão de ponto na fresta. Puxou a alavanca da máquina e, zás!  Bateu o cartão, como se dizia antigamente. 

Rua, para que te quero! Ônibus abarrotado e ela ali espremida como almôndega humana.  As pessoas, coladas num abraço involuntário. Verão ardido suspirando por nuvens arredias. Vento ausente. Bundas anônimas se encostando, presentes. Braços anárquicos em cotoveladas de, “com licença, faz favor”. Chacoalha aqui, encosta acolá. Bom mesmo é estar em casa.

Desce a rampa do terreno em direção a casa.
Abre a porta. Joga a bolsa preta no sofá de plástico vermelho com estrelinhas douradas (muito em moda naquela época). Repara que o tijolo que segura o pé quebrado da poltrona de dois lugares, está fora de lugar. Abaixa e o ajeita melhor para não cair quando sentar. Lembra-se do dia em que os pais do namorado da irmã, gente rica, que chegara de surpresa, (a irmã estava doente) sentaram e, desavisados, caíram de papo pro ar, arrebentando o tijolo. Não bastasse isso, o irmão chegou do trabalho e vendo aquela embalagem retangular, em cima da máquina de costura, pegou e levou pro quarto. É que ele sempre embrulhava a marmita em papel de presente. Pra ninguém desconfiar que “era um marmiteiro”. Sorri ao relembrar da cara das visitas se recuperando do tombo e procurando a caixa de bombons que trouxeram para a doente. Memórias.

Cenas de Natal na televisão.
Enquanto houver a luz há uma estrela… Enquanto houver perfume há uma flor… Enquanto houver carinho há mais amor… E enquanto a paz na terra existir… Natal será Natal… Sempre feliz… Boas festas… Feliz ano novo… Canal 9 vem lhe desejar...
É dia de celebrar. Anima-se. Num átimo dirige-se ao boteco do pai, que estava fechado. Pega uma garrafa de vermute Cinzano. Para acompanhar, uma latinha de quitute de porco. A embalagem era quadrada. Tinha uma pequena chave metálica na lateral, que a gente girava para abrir. Mais banha que carne.
Pronto. A ceia estava pronta.

Vestiu seu ‘baby doll ‘ vermelho e passou batom carmim. Sentou-se com a bandeja no colo, entornou o vermute no copo de vidro americano e deu um gole. Desceu raspando. Comeu mais um pouco e mais um gole. No segundo copo, já descia como água da fonte. A televisão, duplicada. 

De gole em gole, sorvendo a vida na cola da existência.
Muito tempo depois, a pele ainda recendia a vermute.  Aquele cheiro, permaneceu indelevelmente  em sua memória. Vermute nunca mais.




Livre de vírus. www.avast.com

domingo, 10 de janeiro de 2016

Figuras de São Paulo





O dia estreava em sol fulgente.

No terminal  Santo Amaro, o 675L/10 metrô Santa Cruz, demora pra sair. Lá embaixo outra fila se formou.

Da janela eu o vi.  Muito magro, o rosto lembrava o presidente americano Barack Obama. Vestia um terno marrom escuro, camisa listrada de azul e branco. Gravata, vermelho escarlate. Nos pés, sapatos pretos reluzentes. Nas mãos, a Bíblia surrada, encardida. Encosta ao lado da moça de saia longa. As estampas da saia dela chamam a atenção pelos desenhos miúdos da bandeira de São Paulo. Veste um casaquinho verde de listas amarelas. É loira e seus cabelos dourados descem em cascata pelos ombros. Tem dois celulares a à mão.

Ele abre  a bíblia. Encosta a boca ao ouvido dela. Seus lábios se mexem incessantemente. Quem sabe murmurem: “Portanto vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: 'Jesus é anátema.' E ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo. - Coríntios  12:3”

Ela o ignora. Agora com força,  coloca os fones nos ouvidos. Olha na telinha de um e guarda o outro na bolsa.Tecla freneticamente no aparelhinho.  Dá-lhe as costas enquanto lê algo. Talvez o que disse Baudelaire, “quem não sabe povoar sua solidão também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão”.

A visão dura pouco na boca do tempo. O motorista entra e o veículo  arranca.

Figuras do Terminal me remetem à síndrome do flanelinha: não perseguem a glória, somente querem assegurar a vaga.

http://suelyaparecida.blogspot.com.br/

















sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Ano Novo



O ano novo é só o dia seguinte
Seguinte é este instante
Magia de instante vivido, relido.
Releitura de um tempo que se foi. 
Releitura de um tempo que já vem.
Presente? Passado? Futuro?

Passagens.

Passagem de ano. 
Passagem de rodoviária.
Passagem de aeroporto.
Passagem do cais do porto. 
Passageiro desta vida.
Passamentos.


De lembrança em lembrança, um tempo que vai e vem.
O cérebro em ondas magnéticas.
Separa daqui. Apaga dali. Reedita dacolá. 
E o Ano Novo chega já.

Que traga muita esperança

Energia renovada
Força latente
Pensamentos
Momentos
A vida seguinte